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Nem sempre o senso comum aponta para a direção correta quando o assunto é preguiça versus cansaço. É o que acontece quando, no imaginário popular, o fato de ficar em casa durante um período de quarentena nos torna mais, digamos, preguiçosos. A psicóloga do Núcleo Evoluir, Paula Cordeiro, refuta essa tese e sustenta que “de forma alguma ela faz sentido. Talvez nesse momento a gente desacelere. Talvez a gente fique mais consciente da real necessidade de fazer tantas coisas e em tão pouco tempo. Podemos selecionar mais nossas atividades e talvez até riscar algumas que estávamos acostumados a fazer. Sendo assim, podemos ter a sensação de que estamos preguiçosos”.

 

Por outro lado, isso não quer dizer que os momentos de preguiça não aparecerão e diferenciá-la em relação ao cansaço das tarefas realizadas em casa (ou no trabalho, home office nesse momento), pode ser até mais confuso, mas será que isso é motivo para nos culpar? “Preguiça é algo que consideramos ruim: pejorativo. Mas a preguiça também é um indicativo de que as coisas não estão em equilíbrio! Preguiça muitas vezes é o nome que damos para um cansaço que não queremos admitir. Nosso corpo e mente precisam de equilíbrio! Trabalhar e descansar, ser produtivo e ficar no ócio. Temos que sempre avaliar qual a pedida do corpo/mente e o que é possível naquele momento. Corpo pede descanso? É possível descansar?! Então qual o problema de passar um tempo no sofá curtindo o momento!? Precisamos aprender que isso também faz parte da nossa rotina e que não há mal nisso”, esclarece Paula.

 

É preciso entender que “o momento da quarentena tem gerado diferentes demandas emocionais e físicas. Agora cuidamos mais da casa, estamos ligados às notícias (que não costumam ser boas) e tentando nos manter vivos. Nos preocupamos com a saúde dos que amamos e com pessoas que nem conhecemos. Também vivemos a ansiedade do não saber, do desconhecido. Tudo isso traz uma sensação de exaustão ao nosso corpo. O cansaço não vem apenas do esforço físico. A quarentena tem nos exigido mentalmente e emocionalmente. Quando nos deparamos com esses sentimentos, podemos tentar vivê-los. A culpa não é algo que faz sentido lógico, mas ela pode aparecer. Se ela aparecer, tudo bem, mas entenda racionalmente que você está em um processo único e desgastante. E que o seu cansaço é natural diante da situação”.

 

A nutricionista do Núcleo Evoluir, Isabella Frisseli, complementa que a “nossa alimentação pode ser uma grande aliada nesses dias de quarentena”.  Segundo ela, todos nós estamos passando por um momento complexo, e a nossa alimentação pode nos ajudar a termos mais disposição/energia para as atividades diárias. O consumo de frutas e verduras variadas, um pouquinho todos os dias, pode nos garantir nutrientes importantíssimos para o estado de bem-estar e disposição. Também podemos recorrer a algumas bebidas energéticas como, por exemplo, o chá verde e o café. Mas é importante lembrar que: nada é bom em excesso e o equilíbrio é a chave de tudo. Essas bebidas estimulantes devem ser ingeridas até, no máximo, às 17h para que não interfira na qualidade do sono, orienta a profissional.

 

Isabella ressalta que o excesso de açúcar e bebida alcoólica devem ser evitados. “Além de serem grandes potenciais inflamatórios para o nosso metabolismo, quando consumidos em excesso podem causar mais sintomas de ansiedade”. O importante é sempre o equilíbrio para que possamos nos manter saudável, uma alimentação balanceada e uma cobrança menos rígida já é um bom começo para isso.

 

Seja na área da produtividade, alimentação, rotina de limpeza da casa, ou qualquer outra atividade que nos envolvemos a palavra de ordem é EQUILÍBRIO. A correria da rotina, do trabalho, e de muitas outras exigências que nós fazemos, nos afasta da comunicação com nosso próprio corpo. “Precisamos continuar trabalhando”, essa é a regra, o custo disso: não ouvir quando o corpo pede descanso. “Preciso emagrecer”, e assim deixamos de ouvir as reais necessidades alimentares do nosso corpo.

 

Aos poucos vamos criando alguns pré-conceitos: “sou preguiçoso”, “não tenho autocontrole”, “não consigo cumprir minhas metas”. E é contra isso que precisamos lutar: somos humanos, e estamos vivendo um período muito difícil. Por isso, a proposta é: vamos viver todos os nossos momentos. Viva a preguiça! Viva a produtividade! Viva cada pedacinho dessa viagem que chamamos vida.

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Afinal, quem não sente medo? Seja qual for a sua expressão, duração ou intensidade, é inegável que o medo é uma emoção universal e tem sua marca suficientemente instalada na história da evolução da raça humana. Por vezes ele pode até parecer ineficiente, dispensável e perigoso no nosso dia a dia, uma vez que percebemos o quanto nos atrapalha a cumprirmos objetivos, alcançarmos metas ou até mesmo executarmos uma simples (mas no fundo, torturante) ação. Já ouviu a frase “se estiver com medo, vai com medo mesmo”? 

 

Há uma tendência natural - que não percebemos, na maioria das vezes, de ignorarmos as perspectivas positivas de um fenômeno e elegermos as negativas para condenar. É aquela velha história de só perceber o erro dentre mil acertos. “Quantas coisas o medo me impediu de fazer”, “quantas oportunidades perdi”, “depois de perder a chance, vi que o medo só me atrapalhou”. De fato, podemos escolher fugir de situações de forma precipitada, desconsiderando uma avaliação racional do que ela realmente significa. Entretanto, vire o lado da moeda, faça o exercício de avaliar a quantidade de eventos em que o seu medo foi eficiente em gerar comportamentos que te libertaram de riscos e perceba, sem muita dificuldade, que graças a sua precaução, você está vivo.

 

Observe o cenário atual e pense: o que seria da humanidade se não tivéssemos informações essenciais para nos prevenirmos de um vírus tão letal quanto esse? Especialistas projetam como o futuro seria caótico se não tivéssemos acesso à informação e nossos mecanismos preventivos são colocados à prova quando pensamos: quão terrível seria? Se hoje estamos cautelosos e seguindo recomendações de autoridades, é porque nos preocupamos com a nossa saúde e a de nossos pares. Mais do que isso, é porque temos medo. 

 

Hoje, é difícil pensarmos em alguma pessoa que não está minimamente temerosa com a crise pandêmica e não passa, constantemente, por pressão psicológica ao tomar cuidados redobrados para evitar que o pior aconteça. Até os mais incrédulos, ora ou outra, se veem confrontados e obrigados a tomarem decisões que zelam pela sua vida. Os benefícios são claros, a vida deles está preservada e o medo, dia após dia, salva suas peles. 

 

Por outro lado, é fácil pensarmos em alguém que está transformando o caos externo em uma batalha contra sua própria obsessão. Nessa guerra, os seus pensamentos catastróficos estão na linha de frente, ofuscando a realidade e deixando-a perigosa demais para sequer pensar em enfrentá-la. Essa pessoa é capaz de gerir combates contra possíveis ameaças que estão longe de ameaçá-la, pois sua visão já carrega uma lente desordenada que ofusca a sua percepção do mundo.  

 

Aqui, nos confrontamos com um paradoxo: o medo pode ser saudável e gerar atitudes eficientes para preservar a nossa vida (e espécie), mas também pode ser paralisante, prejudicando a percepção da realidade, as relações interpessoais, a interação com o mundo e as motivações para agir sobre ele. Os desdobramentos podem ir de graves transtornos a quadros depressivos. Como algo pode deixar de ser saudável e passar a ser tão grave? 

 

No início do alastramento do vírus, a informação do perigo e toda a catástrofe que ele é capaz de fazer estava sob o nosso controle. Nosso medo e ansiedade estavam lá, preparados, porém, contidos. Em um instante de distração, o perigo estava a solta e o perdemos de vista. Agora, basta abrirmos a porta de casa para estarmos expostos a ele. É como segurar um pote de vidro fechado com um escorpião dentro e derrubá-lo, deixando-o fugir. Enquanto está no vidro, sabemos que ele pode nos matar com o seu veneno, mas isso não é possível enquanto o tivermos sob os nossos olhos e controlando absolutamente todos os seus movimentos. Se ele foge, a incerteza e o caos se instalam, pois já conhecemos as consequências letais de uma “picada”.

 

Essa perda de controle das situações atormenta os mais ansiosos, que agora criaram um mecanismo para se defenderem de qualquer coisa que sinaliza o perigo, seja ele apenas um passo para fora da porta, uma voz diferente dentro de casa ou uma possibilidade remota de contágio que nem se tem certeza que é possível. Ora, afinal, tudo que eles querem é ter controle de todas as variáveis para se prevenirem com eficiência e fecharem sua redoma para não darem margem às possibilidades.

 

A obsessão pelo cuidado junto ao pavor do inesperado é a combinação perfeita para o medo e a ansiedade se retroalimentarem. Conforme continuamos atribuindo significado e “veracidade” a situações hipotéticas, estamos alimentando um monstro com fome egoísta e desenfreada, capaz de consumir a nossa racionalidade e nos acorrentar nas suas ilusórias promessas de segurança. O medo paralisante nos impede de ficarmos sensíveis à nossa realidade, aos nossos fortúnios e no quão valioso é poder estar vivo. 

 

Nessa crise pandêmica, é importante atentar-se à duas coisas importantes. A primeira delas são as questões humanas individuais anteriores a um evento crítico. Isso significa refletir sobre as reações frente aos fatos e perceber se o cuidado é condizente com a realidade ou é uma forma sofrida de sanar, temporariamente, uma obsessão. O “acesso ao excesso” também é um dos maiores catalisadores do desencadeamento das tensões psicológicas. A informação só não é mais importante do que a busca pela verdade. Ela pode, sim, trazer desconforto. Entretanto, é mais favorável diminuirmos as chances da ocorrência de crises ansiosas e pensamentos obsessivos e aumentarmos as chances de fazermos o esforço de voltar a nossa atenção para aquilo que temos de precioso: um lar, família, amigos e a própria vida. 

 

Sim, é necessário que tenhamos medo e tomemos atitudes dando a sua devida credibilidade, pois o perigo é real. O escorpião está a solta. Entretanto, este texto serve para que você faça uma avaliação acurada da realidade e da sua reação frente a ela. Ao termos plena convicção de que fomos “picados” pelo escorpião, podemos adoecer ao imaginarmos o desastre que o veneno está fazendo no nosso organismo, quando, na verdade, apenas sentamos em um alfinete. 

 
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Chega o final do ano e as pessoas começam a fazer um balanço sobre o ciclo que está se fechando e traçar metas para o próximo período. O que levar em conta nesse balanço e nesse planejamento? A psicóloga Paula Cordeiro, do Núcleo Evoluir em Londrina, lembra que esse movimento de avaliar o que passou e pensar no ano que está chegando é natural, mas tem muita coisa que precisa ser levada em conta, afinal um ano é um ciclo muito longo. “É muito tempo para afirmarmos que foi só bom ou ruim. Provavelmente, se pararmos para refletir vamos encontrar coisas boas, ruins, neutras e extraordinárias”, garante ela.

É importante sim, acrescenta a psicóloga, fazer uma reflexão do ano que passou, mas desde que seja de forma realista e não pegar apenas os fatos que incomodaram ou os que deixaram mais saudade. “Uma pessoa perdeu o emprego, o que mais aconteceu? Alguém teve um filho, qual outra novidade? Casou, perdeu alguém da família, fez uma viagem dos sonhos, terminou o namoro...o que mais aconteceu além disso? Tanto as coisas boas quanto as ruins podem tomar boa parte da nossa reflexão, mas elas não são tudo”, reforça Paula.

No meio disso, infelizmente, muita gente pode focar só no que foi ruim, nas perdas e se sentir frustrada. E como lidar com as frustrações? Para a especialista, é preciso acolher essa frustração e tentar entender que não se pode fazer tudo. Além disso, afirma, é importante avaliar o que pode ser mudado, entender realmente por que queríamos fazer aquilo que não aconteceu – uma pós, uma viagem, o casamento, a compra de um apartamento, entre tantas outras coisas. “O que é esse planejamento e por que estamos querendo fazer isso? É importante avaliar bem para que em 2020 seja possível fazer um planejamento melhor”, observa.

Falando em 2020, Paula lembra que é muito importante sim fazer um planejamento, mas sempre lembrando que um ano é muito longo e que pode ser muito difícil “organizar” todo o período. “Para isso, autoconhecimento torna-se fundamental. Em primeiro lugar, avalie por que está se propondo a fazer o que planejou”, afirma. Não significa que não se possa planejar nada, mas sim que é fundamental lembrar que no ano, na vida no geral, podem acontecer imprevistos e isso precisa ser levado em conta.

“Nem tudo vai acontecer exatamente da forma que planejamos. É importante saber disso para não termos uma frustração tão grande”. Na hora de planejar, seja gentil com você mesmo, sugere a psicóloga: ao invés de “em 2020 vou todos os dias na academia às 5h30 da manhã” troque por “vou tentar aumentar minha frequência na academia”. “Alguém que deseja cuidar mais da saúde, como fazer? Mudar alimentação, fazer uma caminhada, fazer terapia? É importante determinar alternativas para a nossa meta, descrevê-la melhor”, orienta Paula, reforçando que é fundamental traçar metas de forma mais ampla e que gerem mais possibilidades de sucesso.

Para 2020, a psicóloga recomenda a todos que “procurem viver mais de acordo com seus valores, prestando atenção nas coisas que faz e no por que faz essas coisas”. “Tem gente que quer comprar uma casa, emagrecer, ter filhos, arrumar um namorado, entre tantos outros desejos. Olhe para dentro e analise se realmente quer aquilo, avalie quais são os motivos que te movem”, pontua ela. Viver de acordo com os próprios valores, acrescenta Paula, nos aproxima mais da pessoa que queremos ser. “Então é importante pensar nossas ações de forma que elas caminhem e nos levem para mais perto da pessoa que a gente quer ser”. Feliz 2020!

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Bruna Senhorelli, estagiária do Núcleo Evoluir

Nesta mesma data, 71 anos atrás, era publicada a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Para entender a importância desse documento, é preciso remontar ao contexto histórico e político da época: o fim da Segunda Grande Guerra exigia que atitudes fossem tomadas em resposta às atrocidades cometidos durante o nazismo. A primeira metade do século XX havia sido marcada pela violência e pela barbárie, expressas pelo genocídio de diferentes populações: entre eles, judeus, comunistas e homossexuais. O nazismo pregava que apenas uma parcela da população era digna de direitos: a raça ariana - o que justificava a violência e a morte dos sujeitos que não pertencessem à essa classe. Diante disso, o Pós-Guerra representava uma possibilidade de reconstrução dos direitos humanos, marcada pela universalidade e indivisibilidade destes direitos. Mas o que esses termos significam, afinal? A universalidade e a indivisibilidade afirmam que a condição de pessoa é o requisito único para a titularidade de direitos, ou seja: para ser merecedor destes direitos, basta ser humano - não estando condicionado a nenhum outro critério, como “raça”, cor, condição econômica, religião, opinião política etc.

Além de expressar, já em seu artigo primeiro, que todas as pessoas nascem livres e igualmente dotadas de dignidade, o documento também assegura o direito à vida, à liberdade, à segurança, além de condenar a tortura e a escravidão. Postula também o direito à um julgamento independente e imparcial e o direito de ser considerado inocente até que sua culpa seja provada perante a lei. Assegura o direito ao acesso do serviço público de seu país, à educação e à condições justas de trabalho.

Entretanto, mesmo após sete décadas da publicação, muitos desses direitos ainda estão sendo questionados e desrespeitados. Expressões como “bandido bom é bandido morto”, “tá com dó do bandido, leva pra casa” são cada dia mais comuns em discussões nas redes sociais e em encontros de família, e expressam uma indignação geral com os níveis crescentes de violência. Mas será que a saída é combater violência com mais violência? Ao afirmar que os Direitos Humanos devem existir apenas para “Humanos Direitos”, remontamos que apenas uma parcela da população é merecedora de dignidade, e que todos que não estão inclusos nessa parcela podem ser violentados, mortos, ou viver em condições indignas. Isso lhe soa familiar?

A tentativa de resolver o problema da violência com mais punição é, portanto, uma saída simplória para um problema altamente complexo. Além disso, a punição está a cada dia mais atrelada ao retributivismo e à vingança do que à ressocialização. É preciso se atentar para até que ponto a justiça com as próprias mãos é de fato justa.

Apesar do discurso comum de que os direitos humanos só servem para proteger bandido, o que vemos diariamente é que os direitos humanos não estão protegendo ninguém: apesar da abolição da escravatura ter ocorrido há 131 anos e da DUDH assegurar que ninguém será mantido sob esse regime, estima-se que 160.000 pessoas no Brasil estejam trabalhando sob condições análogas à escravidão. Apesar do artigo 5º da Declaração assegurar que ninguém será submetido à tortura ou castigo cruel e desumano, o que observamos é que situações como essas acontecem diariamente dentro de viaturas, prisões e delegacias, e estão direcionadas majoritariamente à uma população específica: os pobres e negros. Apesar do artigo décimo postular que todo ser humano tem direito à uma audiência independente e imparcial, o que vemos diariamente é que pessoas de diferentes classes e cores têm acesso a diferentes julgamentos: enquanto é comum ver jovens negros sendo presos por portar poucas gramas de maconha, grandes esquemas de tráfico passam impunes, contanto que sejam organizados por homens brancos da alta classe, muitas vezes até políticos.

Apesar de estar claro que muitas injustiças continuam sendo cometidas, à despeito da publicação da DUDH, é necessário considerar o seu mérito: a Declaração deixa claro que  os abusos aos direitos humanos não devem ser tolerados, e sem ela não haveria condições de cobrar a proteção dos mais vulneráveis, representando um importante instrumento para garantir a dignidade dos indivíduos. O primeiro e mais importante artigo do Código de Ética que rege a profissão do Psicólogo afirma que devemos basear nosso trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. É necessário que, em nossa prática, não sejamos coniventes com a violação de direitos,  negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Hoje, no aniversário de 71 anos da publicação, precisamos sim comemorar todos os avanços que foram feitos na proteção dos menos favorecidos, como as mulheres, crianças, negros e refugiados, mas devemos também nos atentar para tudo que ainda deve ser feito, buscando o momento em que poderemos afirmar que os 30 da artigos da Declaração Universal não representam mais um ideal, e sim uma realidade.

Piovesan, F. (2014). Declaração Universal de Direitos Humanos: desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Estudos Jurídicos, 9(2), 31.

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Por Gustavo Menegon - estagiário do Núcleo Evoluir

             Não é simples falar sobre relações entre pais e filhos. A dificuldade não se encontra somente na gigantesca variabilidade de comportamentos que podem ser observados nessas relações, se dá também nas funções que cada um exerce dentro delas – o que é ser aquele que cuida e o que é ser aquele que é cuidado? A partir de uma perspectiva puramente genética, pais são sinônimos de progenitores, aqueles que nos geraram, literalmente nos trazendo à vida. Entretanto, estendendo um pouco a discussão sem sair do campo da Biologia, encontramos o conceito de “cuidado parental”, um fenômeno muito relevante dentro da história evolutiva, principalmente das aves e boa parte dos mamíferos.

            Cuidado parental consiste no investimentode tempo e esforço que certos animais fazem em sua prole. Isso inclui desde buscar alimento para os filhotes quanto lutar até a morte contra um predador para protegê-los, sendo, em resumo, comportamentos que os animais emitem para garantir a sobrevivência de seus filhotes, ocasionando na dispersão de seus genes e na perpetuação da espécie. Esse é um dos fatores evolutivos que permitiu a inúmeras espécies continuarem a existir e, ainda que existam diferentes estilos de cuidado parental, essa variável também está presente na história evolutiva humana, basta observar a vulnerabilidade que acompanha os bebês durante vários anos de seu crescimento.

            A seleção natural pressionou a nossa espécie a desenvolver esse cuidado mais próximo e duradouro com a prole e, através disso, permitiu que relações além das biológicas surgissem, trazendo os pequenos à dimensão social da vida humana. Os pais, entendidos aqui como quem cuida ao invés de laços sanguíneos, normalmente são a primeira instituição que insere a criança em espaços de socialização. É ali onde a criança aprenderá a se comunicar, a andar, se alimentar e outros comportamentos fundamentais para a vida. Entretanto, ensinar uma criança está longe de ser uma tarefa fácil, uma vez que demanda muito tempo e energia dos cuidadores e nem sempre todo esse investimento “dá certo”.

            É comum cuidadores entrarem em contato com sentimentos extremamente aversivos como frustração, raiva, preocupação, medo e muitos outros devido a relação que estabelecem com as pessoas que necessitam de seus cuidados, aos quais podemos nos referir como filhos. Somado a isso existe a construção cultural do valor de serem “bons pais”, a qual permeia as práticas parentais de cuidado e é diferente para cada cuidador– os filhos não vêm com um manual de instruções do que deve ser feito ou qual jeito de cuidar é melhor.

O investimento, seja afetivo, de tempo, de recursos ou qualquer outro feito, além de ser muito custoso, pode ficar mais sob controle da remoção daqueles sentimentos aversivos do que da própria valorização do comportamento de cuidar. Esse contexto contribui para que verbalizações como “você não sabe o que eu faço por você”, “quero ver quando você tiver um filho” ou até “eu não valho nada para você!” apareçam.

            Contudo não é justo culpabilizar os filhos por isso. Ao mesmo tempo que cuida, a família deposita expectativas e exigências sobre eles, acreditando que está construindo um bom caminho a ser percorrido, afinal também passaram pelo mesmo processo de serem cuidados.Porém, e muitas vezes, o que planejaram não condiz com a reais necessidadesdos filhos ou com os valores que eles estãoconstruindo. Num cenário em que transformações culturais ocorrem muito mais rápido do que antigamente, o choque de valores entre gerações se torna cada vez mais potente e desgastante para ambas as partes.

Essas expectativas e exigências podem pesar para quem recebe esse cuidado, e ainda que não aparentem pesar tanto assim, não há como realmente saber seu peso real – a balança dos filhos é completamente diferente da dos pais. Uma mãe pode idealizar e dar todas as condições para que seu filho se torne um renomado profissional da saúde, mas ele não se vê em outra carreira se não em dar aulas de matemática. Um pai pode sonhar dia após dia em ver sua filha subindo no altar com um vestido branco, porém, quem ela realmente ama não pode se unir a ela em matrimônio dentro de uma igreja.

Cuidado, no final das contas, também é sacrifício. Apesar de culturalmente relacionarmos cuidado a amor, como no ditado “quem ama, cuida”, não é saudável fechar os olhos para as consequências que esse tipo de relação pode trazer. O contexto de necessidade de um cuidado mais próximo que os filhos vivem até a idade adulta, em conjunto com uma cultura que valoriza qualquer tipo de investimento como uma maneira de obter algo em retorno, pode criar uma relação de dívida dos filhos para com quem os cuidou. Sobre os ombros, os filhos carregam, além das expectativas dos pais, a responsabilidade de devolver o amor que receberam ao longo da vida.

Isso demonstra que ser filho não é simplesmente ser cuidado, mas também lidar com todos esses fatores adjacentes ao amor que recebem. Quanto à pergunta do título, é complexo dar um veredicto, porém, ao mesmo tempo, é problemático afirmar que é uma dívida. Se for encarado dessa forma, então toda nova geração estará fadada a cumprir o que lhe é arbitrariamente posto pela geração anterior e, caso não consiga, irá sofrer com uma carga emocional decorrente desse “fracasso”, o que pode ser interpretado até como uma “ingratidão” dentro dessa lógica. Além disso, se ser filho, assim como ser cuidado, não é uma escolha, mas uma condição dada, por qual razão devemos depositar tamanho peso em relações que são construídas pelo afeto?

Tratar o cuidado, ou caso prefira chamar de amor, como uma dívida é desperdiçar a leveza consequente dessas interações e colocar mais peso sobre o que já é custoso. É uma dívida que tira subjetividade dos filhos para transformá-los numa extensão da vida dos pais, uma vez que esses não tiveram a oportunidade de viver a sua própria. Suportar esse ciclo de controle aversivo também cria a ilusão de que as pessoas só poderão ser felizes e realizadas quando se tornarem pais, já que somente nesse momento terão contato com o que lhes é importante através de seus filhos. Vale ressaltar que o discurso de “se eu não posso viver isso, meu filho viverá por mim” raramente é explícito para ambas as partes, dificultando ainda mais romper com essa dinâmica familiar.

Diante dessas condições, o diálogo entre pais e filhos se torna fundamental para contrapor essa postura de culpa e exigência. Não é fácil expor nossas frustrações e angústias para com quem amamos, porém é a forma mais funcional de transformar uma relação de dependência em uma de respeito a individualidade do outro.

Referências

MANFROI, Edi Cristina; MACARINI, Samira Mafioletti; VIEIRA, Mauro Luis. Comportamento parental e o papel do pai no desenvolvimento infantil. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, v. 21, n. 1, p. 59-69, 2011.

KOBARG, Ana PR; SACHETTI, Vírginia AR; VIEIRA, Mauro L. Valores e crenças parentais: reflexões teóricas. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, v. 16, n. 2, p. 96-102, 2006.

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Julia Röcker - estagiária do Núcleo Evoluir

            O câncer é uma doença em que ocorre o crescimento desordenado do número de células que podem concentrar-se em uma ou mais regiões. Existem mais de 100 tipos de câncer, variando conforme o tipo de célula e região atacada. Essa doença não se restringe a uma faixa etária específica, podendo atingir crianças, adultos e também idosos.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), uma maneira de prevenir a ocorrência do câncer é evitar os fatores de risco (alimentação ruim, fumar, peso corporal acima do adequado, falta de atividade física, ingestão de álcool, consumo de carne processada, exposição ao sol sem proteção e a agentes cancerígenos no trabalho) e desenvolver um estilo de vida saudável, mantendo os exames preventivos e a vacinação em dia. Atualmente, no entanto, nem sempre é possível optar por um estilo de vida saudável, pois os hábitos cotidianos do indivíduo são atravessados por sua condição econômica e também por condições relacionadas ao seu trabalho. Por exemplo: se uma pessoa possui um turno de trabalho de 12 horas diárias, não consumir carne processada, praticar exercícios físicos e manter uma alimentação saudável pode ser um grande desafio. Além disso, é imprescindível destacar que, em território nacional, muitos agrotóxicos são utilizados no cultivo de alimentos e também ocorre o amplo uso de antibióticos na criação de animais.

Sabe-se que o tratamento para o câncer inclui a necessidade de submeter o paciente a exames e outros procedimentos dolorosos, que utilizam medicamentos com muitos efeitos colaterais desagradáveis. Além disso, pode-se dizer também que o diagnóstico de câncer é uma etapa difícil, e pode trazer, além do sofrimento físico do indivíduo, sofrimento psicológico intenso dos pacientes e de seus familiares ou cuidadores. Segundo Motta e Enumo (2002), fatores como o ambiente e a rotina hospitalar, ausência da família, e a agressividade do tratamento e também sua longa duração podem constituir um contexto muito aversivo para o paciente portador de câncer, dificultando o enfrentamento dessa fase tão difícil.

Diante das dificuldades mencionadas, a família se configura como uma rede de suporte indispensável para o paciente, uma vez que os familiares podem auxiliar o indivíduo a lidar melhor com os fatores estressantes do tratamento do câncer (Tavares e Trad, 2010). Além disso, a dinâmica familiar também irá se modificar conforme as fases do tratamento (diagnóstico, fase crônica e fase terminal) de maneira a melhor atender as demandas do indivíduo portador de câncer. Cada fase possuirá seu foco: durante o diagnóstico, a família se organiza de forma a atender as necessidades imediatas do indivíduo com câncer, e trabalhar o recebimento desse diagnóstico; na fase crônica, são trabalhados os processos de aderência ao tratamento e também de convivência com suas implicações; e caso haja fase terminal, a família se organizará de forma a pensar questões como a finitude da vida, e a desenvolver cuidados paliativos para com o indivíduo (Tavares e Trad, 2010). Nesse sentido, é inevitável citar a psicoterapia como forma de auxiliar o indivíduo e sua família a enfrentar todos os processos envolvidos no descobrimento e tratamento do câncer.

            É importante destacar que atualmente o avanço das tecnologias e da medicina permitiu que seja possível curar muitos tipos de câncer, e essa chance aumenta se a doença for descoberta em seus estágios iniciais. Além disso, o afeto, carinho e apoio da família são peças-chave para auxiliar o indivíduo a percorrer o caminho até a cura. Portanto, neste Dia Nacional do Combate ao Câncer, é uma missão de todos se envolver nas campanhas de vacinação, de exames preventivos e de conscientização sobre o câncer, bem como desenvolver o hábito saudável de visitar um médico regularmente.

Referências:

MOTTA, Alessandra Brunoro; ENUMO, Sônia Regina Fiorim. Brincar no hospital: câncer infantil e avaliação doenfrentamento da hospitalização. Psicologia, saúde & doenças, v. 3, n. 1, p. 23-41, 2002.

TAVARES, Jeane Saskya Campos; TRAD, Leny Alves Bomfim. Estratégias de enfrentamento do câncer de mama: um estudo de caso com famílias de mulheres mastectomizadas. Ciência & Saúde Coletiva, v. 15, p. 1349-1358, 2010.

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Apesar dos avanços na legislação de proteção à mulher, a cada quatro minutos uma mulher é agredida no Brasil. O Dia Internacional do Combate à Violência Contra a Mulher é celebrado anualmente no dia 25 de novembro com o objetivo de voltar a nossa atenção para essa questão que está longe de ser resolvida.

O Mapa da Violência aponta que o Brasil é o quinto país onde mais se mata mulheres, atrás apenas de países como a Rússia, Guatemala, El Salvador e Colômbia. O mesmo levantamento traz também que o feminicídio no Brasil é 48 vezes maior do que no Reino Unido, por exemplo. Tendo em vista a subnotificação da violência de gênero, acredita-se ainda que este número seja muito maior, visto que muitas mulheres não denunciam casos de agressão e estupro, e que muitos dos crimes de feminicídios não são classificados como tal.

Os dados mostram que a criminalização da violência contra a mulher não basta: a Lei 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, foi sancionada em agosto de 2006 com o objetivo de coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Mais tarde, em 2015, foi aprovada a Lei do Feminicídio (13.104), categorizando o assassinato de mulheres como crime hediondo e estabelecendo penas mais duras para esse ato. O Mapa da Violência mostra, entretanto, que as leis não alcançaram seu objetivo, visto que a taxa de homicídio dessa população segue aumentando: enquanto em 2007 a taxa era de 3,9, em 2015 passou para 4,8.

A condição de desigualdade social das mulheres com relação aos homens é observada em todas as culturas do mundo: não só diferenças biológicas separam homens e mulheres, mas sim a dominação de um gênero sobre o outro, a partir da concepção de que o feminino é inferior ao masculino. Nesse sentido, a violência contra as mulheres é fruto de um funcionamento social marcado pela dominação masculina, o patriarcado, que está na base das representações de gênero que legitimam a desigualdade internalizada por homens e mulheres, assegurando aos homens que perpetuem sua supremacia inclusive por meio de violência. Por esse motivo, ao compreender a dominação masculina como algo natural, muitas mulheres permanecem em relações abusivas e não conseguem romper com a situação de opressão a que estão submetidas. Entender a violência contra a mulher como fruto do modelo patriarcal faz ainda mais sentido quando verificamos que, em cerca de 60% dos casos, a agressão ocorre no ambiente familiar, e grande parte das vezes é cometida pelo próprio parceiro amoroso da vítima.

Além disso, a agressão pode não ser só um tapa: apesar da violência física ser a mais evidente, as mulheres estão submetidas a diferentes tipos de agressão, como a psicológica e sexual. A violência psicológica pode ser de difícil detecção, mas traz prejuízos tão grandes ou ainda maiores que a agressão física, e pode ser manifestada por meio de abuso verbal, intimidação, ameaças, desprezo, controle econômico, etc. Por ser mais sutil, é comum que muitas mulheres não reconheçam que estão passando por uma situação de abuso, o que faz com que elas permaneçam em relações violentas.

Em 2018, foram registrados 66 mil estupros no Brasil, o que corresponde a cerca de 180 casos por dia - destes, em 82% das ocorrências, as vítimas eram mulheres. Há ainda que se considerar que este é um crime de baixa notificação, já que muitas das vítimas se negam a registrar o boletim em decorrência de um sentimento de culpa, com medo de serem desacreditadas, de possíveis retaliações, discriminação, humilhação e preconceito. Segundo o Datafolha, 33% da população acredita que a mulher seja culpada pelo estupro. Imagina-se que o número real de casos seja muito maior, já que a estimativa é de que apenas 10% das ocasiões sejam informadas à polícia. Os dados apontam também que em cerca de 70% dos casos, o abusador é alguém próximo à vítima: é necessário desmistificar a imagem de que o agressor é um homem desconhecido, já que em grande parte das vezes, o estupro acontece dentro de casa.

Já o feminicídio é a forma extrema de violência de gênero que resulta na morte da mulher, sendo um qualificador do crime de homicídio. É preciso lembrar que nem todo assassinato de mulheres se caracteriza como feminicídio: para isso, é necessário que a motivação do crime seja baseada no gênero, como em situações de violência doméstica - tanto que a maior parte desses crimes são cometidos por parceiros, ex-parceiros ou pessoas da própria família da vítima. Caracterizar esses crimes como feminicídio, e não somente como homicídio, tem o objetivo de visibilizar e evitar a banalização dessa violência, fornecendo estatísticas e viabilizando a criação de políticas públicas.

 Apesar de estar presente em todas as culturas, a desigualdade de gênero e a violência contra a mulher não é um fenômeno único, e acontece de forma diferente nos variados contextos. Outro dado do Mapa da Violência mostra que a população negra é vítima prioritária da violência no país, com tendência crescente, enquanto a taxa de mortalidade entre brancas tende a cair. As grandes vítimas da violência de gênero são as mulheres pobres, jovens (entre 18 e 30 anos) e negras. Entre 2003 e 2013, o assassinato de mulheres brancas caiu 9,8%, enquanto o de mulheres negras aumentou 54,2%.

Tendo em vista os dados que apontam que os crimes de agressão física, sexual e feminicídio têm aumentado a cada ano, a despeito da criação de leis sobre isso, chegamos a uma conclusão: só a punição não é suficiente. Além da baixa notificação desses crimes, a taxa de condenação e prisão é ainda inferior: é preciso que essas leis se façam cumprir. Maior do que isso, é necessário uma mudança no funcionamento geral da sociedade que ainda acredita que a mulher merece apanhar ou ser estuprada. É preciso ensinar aos meninos, ainda jovens, a não estuprar. É preciso ensinar as mulheres a reconhecerem situações de abuso e violência para que elas se retirem assim que possível. É preciso ensinar as mulheres de que nada justifica ser violentada, estuprada ou morta: não foi culpa de sua roupa, de onde ela estava ou a hora em que estava. É preciso que todos nós saibamos acolher as mulheres vítimas de violência para que, dessa forma, os casos não deixem de ser notificados por medo do julgamento alheio. Precisamos aprender a nos posicionar frente às violências que presenciamos, e mesmo quando forem entre marido e mulher: nós meteremos a colher! Em uma sociedade machista, não ser machista não basta: devemos ser anti-machismo.

Por Bruna Senhorelli

WAISELFISZ, Júlio Jacob. Mapa da Violência 2015- homicídios de mulheres no Brasil. Brasília: Flacso Brasil, 2015. Disponível em: http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

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Por Gustavo Sinhorini Menegon - estagiário do Núcleo Evoluir

            O mês de Novembro, quando o assunto  saúde pública, é marcado pela cor azul com o objetivo de reforçar a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de próstata. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA, 2019), o câncer de próstata é o segundo tipo de câncer que mais atinge homens no Brasil (atrás apenas do câncer de pele), sendo registrados em torno de 69 mil novos casos por ano. Para piorar, a incidência de câncer de pele tem aumentado significativamente nos últimos anos (GUERRA et al., 2005) e, ainda que o Novembro Azul seja uma campanha de prevenção de âmbito mundial, existe uma certa resistência por parte dos homens em realizar os exames preventivos.

            O toque retal ainda é uma das principais medidas de prevenção precoce do câncer de próstata, e isso tange muito ao que é considerado “ser homem” em nossa cultura. O fato de esse exame ser associado a práticas sexuais homoafetivas continua sendo um obstáculo para a prevenção do câncer de próstata, uma vez que exercício da masculinidade é encarado por muitos como a negação de características que são consideradas “femininas” ou quaisquer outras que fujam da ideia de “homem ideal”, viril e másculo (NASCIMENTO, 2005). Essa insegurança quanto à masculinidade está presente no relato de vários homens ao expressarem como se sentem diante da possibilidade de realizarem o toque retal, independente do grau de escolaridade (GOMES et al., 2006)

            Além disso, a influência desta “masculinidade tóxica” não é restrita à prevenção do câncer de próstata, mas se estende a todo o cuidado do homem para com sua saúde de maneira geral. A maior parte das internações em hospitais devido a doenças respiratórias, digestivas, circulatórias e infecciosas são em homens [U1] (BRASIL, 2015). Mesmo existindo programas governamentais voltados especificamente para a saúde do homem, como a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), a aderência a esses serviços de saúde ainda é baixa. Cavalcanti et al (2014) apresenta alguns fatores que contribuem para esse quadro, como a inserção da maioria dos homens no mercado de trabalho que, somada a ideia de masculinidade, impossibilita os homens de se afastarem do papel de provedor da casa para cuidar da saúde. Os autores também ressaltam que muitos homens tratam sua saúde como algo secundário ou algo que pode ser negligenciado frente as suas outras responsabilidades, bem como a própria dificuldade  em reconhecerem que têm problemas de saúde e aceitarem auxílio para tratá-los.

            O Novembro Azul, apesar de ser uma campanha de prevenção fundamental, é apenas o início do longo caminho que é promover a saúde dos homens. Falar sobre saúde do homem é falar sobre cultura de masculinidade e como isso afeta direta e indiretamente o acesso aos serviços de saúde pública e o próprio cuidado dessas pessoas consigo mesmas. Cuidar-se não deveria ser sinônimo de fraqueza, como é visto sob a ótica patriarcal tão presente na nossa cultura, mas de coragem e enfrentamento. O processo de adoecimento traz sofrimento para qualquer pessoa que passa por ele e, se o compartilhamento desse sofrimento é pouco aceito ou até punido, a dificuldade que os homens têm para olhar para sua saúde crescerá cada vez mais.

            Embora não seja fácil falar sobre masculinidade, uma vez que muitos homens se mostrarão resistentes a essa discussão, não há outro meio de reduzir as estatísticas de adoecimento e mortalidade masculina. Essa discussão deve ser feita tanto no âmbito individual quanto no coletivo para realmente transformar a noção problemática de que “ser homem” é ser invencível, invulnerável. Se conseguimos trazer um pouco desses questionamentos no mês de Novembro, porque não estender a cor azul aos outros meses do ano?    

Referências:

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Dados de Morbimortalidade Masculina no Brasil. Brasília, DF, 2015.

CAVALCANTI, J. R.; Ferreira J. A.; Henriques A. H. B.; Morais G. S. N.; Trigueiro J. V. S.; Torquato I. M. B. Assistência Integral a Saúde do Homem: necessidades, obstáculos e estratégias de enfrentamento. Escola. Anna Nery Revista de Enfermagem, Rio de Janeiro, v. 18, n. 4, p. 628-634, 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-81452014000400628&lng=en&nrm=iso>.

GOMES, Romeu et al. As arranhaduras da masculinidade: uma discussão sobre o toque retal como medida de prevenção do câncer prostático. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 13, n. 6, p. 1975-1984, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232008000600033&lng=en&nrm=iso.

GUERRA, M. R.; GALLO, C. V. M.; MENDONÇA, G. A. S. Risco de câncer no Brasil: tendências e estudos epidemiológicos mais recentes. Revista Brasileira de Cancerologia, Rio de Janeiro, v, 51, n. 3, p. 227-234, 2005. Disponível em: http://files.rachelmarins.webnode.com.br/200000020-3c6b73d65a/Risco%20de%20C%C3%A2ncer%20no%20Brasil%20-%20estudos%20epidemiol%C3%B3gicos,%202005.pdf

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. INCA. Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-prostata

NASCIMENTO, M. R. Câncer de próstata e masculinidade: motivações e barreiras para a realização do diagnóstico precoce da doença.Núcleo de Estudos de População– Unicamp, 2005. Disponível em: http://www.abesp.nepo.unicamp.br    

 

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Você já se percebeu com um leve desconforto no estômago, coração acelerado, mãos suando e tensão muscular? Dificilmente diria que não. Se essas sensações corporais estavam acompanhadas de expectativas de eventos futuros, provavelmente estava se sentindo ansioso. Muitas pessoas se identificam com esse padrão e acreditam que o dia a dia agitado tem dado um toque “especial” a sua ansiedade. Esse texto visa identificar possíveis explicações para esse fenômeno e te ajudar a responder a seguinte pergunta: porque sinto que estou cada vez mais ansioso?

O modelo atual de convivência e desempenho social está adoecendo pessoas todos os dias. A ansiedade está cada vez mais enraizada nos nossos planos de ações e nos sentimos cada vez menos capazes de controlá-la. Antes de nos aprofundarmos sobre esse tema aplicado ao nosso contexto atual, faz-se necessário percorrermos uma trajetória histórica para compreendê-lo.

Por incrível que pareça, a ansiedade tem adquirido funções adaptativas ao nosso organismo ao longo da evolução da espécie humana. Soa até inusitado compreender que essas sensações tão inoportunas podem ser funcionais ao homem. Para tentarmos analisar essa asserção, tentarei exemplificá-la fazendo você imaginar o cotidiano perigoso dos nossos ancestrais.

Ao conviver com situações instáveis e o risco de morte eminente, é essencial que o homem das cavernas esteja em constante vigilância para sobreviver e preservar sua espécie. Diante de situações perigosas, geralmente ele tem duas opções: fugir ou enfrentá-la. Logicamente, é funcional e interessante a ele que desenvolva habilidades comportamentais para lidar com situações de ameaça. Porém, nem sempre ele terá táticas suficientes para enfrentar um leão faminto, por exemplo. Imaginemos que, ao certificar-se do risco de morte que a presença do leão traz, o sistema autônomo do seu corpo é ativado. A partir de agora, seu organismo está preparado para lidar com essa situação de forma mais rápida e efetiva, considerando todas as rotas de fuga e liberando hormônios que intensificam o ritmo cardíaco, direcionam uma maior quantidade de sangue para os seus músculos e pernas – para que corra com mais eficiência, sua respiração é mais rápida e sua pressão arterial aumenta. Tudo isso é estrategicamente preparado pelo corpo para que ele fuja e sobreviva.

Supomos que, diante desse contexto, uma primeira resposta de fuga é emitida e o perigo foi evitado com sucesso. Agora, diante de uma nova situação potencialmente perigosa, podemos prever que a própria ansiedade que antecipa o medo em vivenciá-la pode se tornar condição para a emissão de um novo comportamento de fuga.  Em outras palavras, se o indivíduo está sentindo ansiedade, a tendência é que ele se esquive da situação que a gerou (Sidman, 1989/2009).

Agora que compreendemos melhor a função que a ansiedade tem adquirido ao longo da nossa história evolutiva, podemos prosseguir para analisá-la em situações cotidianas e contextualizá-la em uma condição fóbica.

Skinner (1953/2005), ao destacar o problema da ansiedade fóbica, afirmava que a própria presença da ansiedade pode nos sinalizar um estímulo aversivo e aumentar a probabilidade de respostas de fuga/esquiva, uma vez que foi estabelecida uma relação de contiguidade entre a ansiedade e o perigo. Portanto, a ansiedade pode ser aversiva o suficiente para evocar respostas de fuga/esquiva, mesmo que não saibamos, exatamente, o que estamos evitando.

Como já citado, a ansiedade “saudável”, de fato, é útil a nós. Ao funcionar como um alerta de situações que nos causam danos reais ou até mesmo como um “gás” para darmos o nosso melhor em uma prova, por exemplo – se utilizamos esta como o alvo da ansiedade –, podemos conviver com ela normalmente (Teles, 2018). Entretanto, a ansiedade a nível patológico não tem mostrado nenhuma utilidade ao nosso organismo e no nosso cotidiano. Ao contrário disso, pode interferir amplamente no funcionamento e na manutenção de comportamentos saudáveis.

Utilizemos o exemplo do estudante que faz provas acadêmicas. A imersão num contexto coercitivo lhe diz, diariamente, que ele deve estudar para ser aprovado e as conseqüências que terá caso não estude. As perdas e sanções que pode sofrer envolvem não somente a punição do comportamento inadequado por parte da escola (não estudou, nota zero!) e por parte dos pais (perda de benefícios – videogame, sair com os amigos, mesada, etc.) como também a ansiedade diante de futuras provas, a procrastinação dos estudos, sentimentos de raiva e aversão ao contexto acadêmico, evitação de assuntos relacionados, entre outros. Existem diversas variações dos subprodutos que vêm inclusos no pacote.  

Essa diversidade de efeitos colaterais evidencia o que alguns autores descrevem sobre o problema das punições severas (Sidman, 1989/2009; Skinner, 1953/2005). Ao definir o condicionamento operante, Skinner afirma que comportar-se diante de um estímulo condicionado à contingência primordial é funcional ao sujeito, pois à medida que comportamento de fuga é reforçado – por retirar estímulos aversivos do contexto, no caso do reforçamento negativo – , a probabilidade de ele ocorrer novamente é aumentada. A partir dessa concepção, é inteligível que a intenção do estudante acadêmico é afastar-se de contextos aversivos ou da possibilidade de vivenciá-los.

Ao se aprofundar nos problemas da apresentação da punição severa, Skinner também tratou da punição sem aviso prévio. Segundo o autor, um sujeito que viveu eventos aversivos “incidentais”, ou seja, sem aviso de que algo ruim estava por vir ou sem saber qual comportamento gerou tal consequência, não é capaz de distinguir os estímulos que lhe sinalizam o perigo e, geralmente, não encontra outra saída para se comportar a não ser se esquivar. Pessoas que possuem um repertório de esquiva altamente elaborado são vigilantes e constantemente pensam: “algo de errado está prestes a acontecer” (Skinner, 1953/2005).

Por mais que a ansiedade seja distinta do evento aversivo em si, Skinner (1953/2005) relata que também nos esquivamos da ansiedade. Dessa forma, comportamentos reforçados negativamente não estão somente sob controle de estímulos que sinalizam o perigo, mas também dos sentimentos que o precedem. Nesse ponto, o autor afirma que a ansiedade pode até suprimir a aprendizagem de novos comportamentos, uma vez que o sujeito vive se esquivando. A tendência da restrição excessiva é ficarmos cada vez mais vigilantes à situações "potencialmente" perigosas – aqui, devemos nos lembrar que essas situações dizem respeito a história comportamental individual de cada um – e menos sensíveis às vantagens de nos expormos a novas experiências e, possivelmente, obtermos ganhos com elas. 

Portanto, se o estudante tem que estudar para a prova acadêmic que será realizada semana que vem, há uma alta probabilidade de ele se sentir ansioso diante da quantidade de livros que tem que ler, de emitir comportamentos de procrastinação do estudo ou até mesmo de não estudar. Uma vez que o comportamento de estudar fica sob controle de contingências aversivas e não de contingências que valorizam os comportamentos adequados, a curiosidade por aprender coisas novas passa a não importar mais.

Sidman (1989/2009) tem uma posição consistente ao afirmar que o controle coercitivo é responsável pela maioria dos problemas sociais. Constantemente, nos vemos obrigados a fazer coisas para evitar sanções e isso implica dizer que nos esquivamos o tempo todo.

Do ponto de vista de Sidman (1989/2009), o controle coercitivo resulta em desajustamento social e capacidade reduzida para engajamento construtivo. A inflexibilidade diante de eventos torna-se uma característica notável de indivíduos extremamente ansiosos, marcados pela coerção excessiva e a esquiva de sentimentos aversivos. Tudo aquilo que é seguro e previsível passa a ser a sua experiência diária e sua rotina é contemplada por comportamentos estereotipados e mecânicos.

Portanto, o excesso de controle coercitivo, combinado com uma instabilidade emocional para lidar com eventos aversivos, torna o reforço positivo ainda mais valioso, à medida que o acesso a essa conseqüência vai se tornando cada vez mais difícil na vida do sujeito.

Não é novidade que a contemporaneidade, juntamente com inúmeros avanços tecnológicos, permite o fácil acesso a vários reforçadores imediatos. Um dos instrumentos que foram desenvolvidos para diminuir a taxa de respostas para obter o que queremos, que temos a nossa disposição constantemente e nos permite acesso a um número exorbitante de reforçadores é a internet.

Segundo Ewald et al. (2017), a busca de algo nas redes sociais que visa o afastamento de sentimentos desagradáveis é um fator identificado em várias pessoas que as utilizam. Isso também significa dizer que estar constantemente conectado a uma realidade paralela pode favorecer déficits de habilidades para lidar com os conflitos reais do indivíduo, que deixa em segundo plano os aspectos relevantes à manutenção das relações humanas e da própria vida. Estamos cada vez menos tolerantes a frustração e mais conectados a uma realidade que nos livra dela.

Bauman (1998) afirma que o sofrimento está intimamente relacionado ao estilo de vida na contemporaneidade. É impossível descartar o mundo em que o sujeito se constrói e o momento histórico como parte da experiência do sujeito que se comporta socialmente (Ewald et al., 2017).

Com o avanço da facilidade para se alcançar objetivos, do sucesso e do bom status social, a promoção do sentimento de inferioridade e inadequação naqueles que não alcançam esses prestígios é cada vez maior. É nesse cenário que vemos pessoas com a sensação de que não sabem lidar com os seus problemas e com o outro.

As redes sociais, por exemplo, nos possibilitam sermos quem quisermos. Não é nada difícil vermos publicações de fotos e frases que transmitem conceitos de liberdade, felicidade e qualidade de vida. Entretanto, é ali que enxergamos o conceito de liberdade paradoxal: indivíduos são “livres” para realizarem seus desejos que sempre estão condicionados ao alívio diante de tantos problemas, de uma busca por aprovação social ou até o resgate de uma felicidade perdida (Ewald et al., 2017).

A pressão social para alcançar status e sucesso tem se tornado a motivação central de várias escolhas que realizamos. A liberdade na modernidade é uma ideia camuflada de que você pode ser livre, porém, somente se alcançar a felicidade. De acordo com Ewald et al. (2017), a ansiedade tem se tornado um sintoma derivado da sensação de impotência do homem contemporâneo. Diante de tantos meios de coerção, ele acredita que não é capaz de lidar com os seus problemas, o que o faz recorrer às medidas mais rápidas para aliviar tal sofrimento.

Num contexto onde a felicidade é um dever e o desempenho é a engrenagem que move o mundo, o homem passa a se ver como uma máquina ultrapassada, um instrumento inútil perante a sociedade bem sucedida e, por mais que tente, não consegue acompanhar e cumprir as regras rígidas que lhe são estabelecidas (Ewald et al., 2017).

O sofrimento passa a ser tratado, então, isoladamente de todo o contexto histórico-social em que estamos vivendo. O cenário contemporâneo é totalmente retirado de cena e todas as possibilidades de síndromes, transtornos e deficiências são direcionadas ao indivíduo, que agora é diagnosticado e pertencente a um campo banalizado (Ewald et al., 2017).

A imposição de ideais de liberdade e felicidade acabam sendo, então, as molas propulsoras da ansiedade desenfreada na contemporaneidade. O paradoxo do tempo pós-moderno nos diz que podemos ser e ter o que quisermos, instigando o sentimento de que os seus desejos podem ser facilmente realizados (Ewald et al., 2017). Entretanto, é exigido do sujeito um ritmo frenético, a corrida pela competição e de desempenhar o melhor de si para alcançar os seus ideais, como se a felicidade estivesse no topo da montanha inalcançável e que não há mais fôlego para continuar escalando.

Atentar-se para a relação do sujeito com o seu contexto histórico-social tem se tornado cada vez mais importante e condição necessária para compreender demandas psicológicas. Estamos em constante envolvimento com a realidade que nos cerca e cada vez mais afetados, emocionalmente, pela coerção exercida por ela. A análise funcional de um comportamento deve sempre compreender o indivíduo na sua integralidade, abrangendo todas as suas experiências e os níveis de contextos que selecionam seus comportamentos para, assim, encontrarmos as raízes desencadeadoras dos sintomas.

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Z. O mal-estar na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.

EWALD, A. et al. Contemporaneidade e sofrimento psíquico: Relações entre modos de vida e demandas psicoterapêuticas. Psicologia Argumento, v. 30, n. 68, p. 119–129, 2017.

SIDMAN, M. (2009). Coerção e suas implicações. (R. Azzi; Andery, M.A, Trads.) Campinas: Editora Livro Pleno. (Originalmente publicado em 1989).

SKINNER, B. F. (2005). Science and human behavior. 2 ed. Society. (Originalmente publicado em 1953).  

TELES, L. O cérebro ansioso: Aprenda a reconhecer, prevenir e tratar o maior transtorno moderno. 1 ed. São Paulo: Alaúde Editorial, 2018.

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O Dia das Crianças geralmente é sinônimo de muitos presentes, doces e festa. Apesar do apelo comercial da data, esse dia também é uma ocasião para nos atentarmos ao modo como estamos lidando com os pequenos.

Atualmente, em decorrência das transformações culturais, políticas e econômicas pelas quais a sociedade vem passando e com a exigência de jornadas de trabalho cada vez mais extensas, é comum que, para lidar com a própria culpa, alguns pais tentem compensar sua ausência com bens materiais, como brinquedos, celulares, computadores, viagens etc. No entanto, nada pode substituir a importância da presença parental na formação das crianças:  a família é a principal influência norteadora da constituição da personalidade da criança e o desenvolvimento de habilidades sociais na primeira infância está fortemente vinculado ao contexto familiar (MONDIM, 2008). O bom funcionamento familiar, a existência de vínculo afetivo, o apoio e monitoramento parental são fatores que reduzem a probabilidade de diversos problemas de comportamento no futuro, como o uso de drogas e o engajamento em atos infracionais.

Nas últimas décadas, a demanda por atendimento psicológico para crianças tem aumentado cada vez mais, e é consenso entre os psicólogos que na maioria das vezes, os problemas de comportamento das crianças têm como objetivo conseguir a atenção dos pais:  você já percebeu que, geralmente, quando a criança está brincando quietinha, isso passa despercebido, mas basta um comportamento inadequado para que os pais corram repreendê-la? A questão é: para crianças, não importa que você esteja dando uma bronca, desde que você esteja prestando atenção nela. Dessa forma, quanto menos atenção a criança está recebendo, mais frequentes e intensos serão os comportamentos-problema. Muitas vezes, basta que os pais passem a fornecer atenção e elogios aos comportamentos adequados, para que os inadequados diminuam de frequência.

Além dos efeitos sobre os comportamentos-problema, a atenção dos pais também é responsável pela construção da autoestima dos filhos: como qualquer outro sentimento, a autoestima não nasce conosco e deve ser desenvolvida durante a vida. Dessa forma, o reconhecimento que os pais expressam ao filho pelos seus comportamentos e conquistas é fundamental no desenvolvimento do amor próprio (GUILHARDI, 2002). É importante, entretanto, que os pais certifiquem-se de fazer com que a criança se sinta amada tanto nas vitórias quanto nas derrotas. 

Se tratando da educação das crianças, é comum que os pais transitem entre a repressão e a permissividade: enquanto um modelo diz respeito aos castigos corporais (beliscões, palmadas, puxões de orelha) e à retirada de algo importante para a criança (ex. ficar uma semana sem videogame), o outro refere-se à ausência de limites, e ambos têm efeitos nocivos sobre o comportamento das crianças, acarretando em prejuízos ao processo educativo dos filhos.

Como sabemos, a utilização de punição corporal na educação dos filhos é proibida desde 2014: a lei 13.010 aponta que “a criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto”. A literatura científica aponta que o maltrato é o fator de risco mais fortemente associado com o desenvolvimento de psicopatologias: o abuso e a negligência causam efeitos profundamente negativos no curso de vida da criança, podendo comprometer a cognição, linguagem, desempenho acadêmico e desenvolvimento sócio-emocional (MAIA, 2005). Sabemos também que o uso de punição, tanto corporal quanto outras formas mais brandas, acarreta em efeitos emocionais na criança (como sentimentos de raiva, medo e ansiedade), além de só suprimir o comportamento inadequado quando a pessoa punidora (o pai que exerceu a punição) está presente: isso faz com que a criança passe a fazer “arte” escondida e a mentir para os pais.  Além disso, ao se utilizar da punição, estamos fornecendo um modelo de agressividade para as crianças, que aprendem grande parte de seu repertório por imitação, e tendem a repetir os atos agressivos.              

A ausência de punição, no entanto, não é sinônimo de permissividade: para ensinar aos filhos o que é correto, devemos estabelecer e explicitar limites, sermos claros e consistentes e garantir que os limites sejam respeitados, elogiando, dando atenção e afeto aos filhos quando seguirem as regras estabelecidas. Alguns pais podem imaginar que as crianças se sentem amadas quando podem fazer o que querem: no entanto, elas precisam de limites saudáveis e razoáveis, e a preocupação e supervisão dos pais é o que faz com que elas se sintam amadas.

Se você, por diversos motivos, não pode passar grandes quantidades de tempo com seu filho, invista na QUALIDADE do tempo que passa com ele: demonstre interesse, ouça atentamente as suas histórias, se esforce para compreender seus problemas. Compensar a ausência com presentes pode fazer com que a criança supervalorize as coisas materiais em detrimento dos momentos preciosos com quem se ama, e que pense que o dinheiro pode comprar tudo. Nesse dia das crianças, tudo bem presentear seu filho com um carrinho, uma boneca ou um xbox, mas não se esqueça de que o presente deve ser acompanhado por um caloroso abraço e um “eu te amo”.

 

Referências:

Mondin, E. M. C. (2008). Práticas educativas parentais e seus efeitos na criação dos filhos. Psicologia Argumento, 26 (54), 233-244.

Canaan, S., Neves, M. E., Silva, F., & Rober, A. (2002) Compreendendo seu filho: uma análise do comportamento da criança. Belém: Paka-Tatu.

Guilhardi, H. J. (2002). Auto-estima, autoconfiança e responsabilidade. In M. Z. S. Brandão et al. Comportamento humano: tudo ou quase tudo que você queria saber para viver melhor. Santo André: Editora Esetec. 63-98

Maia, J. M. D., & Williams, L. C. A, (2005). Fatores de risco e fatores de proteção ao desenvolvimento infantil: Uma revisão da área. Temas em Psicologia, 13(2), 91– 103.

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