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Ansiedade na contemporaneidade: estamos cada vez mais ansiosos?

Por Isabela Canezim - estagiária no Núcleo Evoluir

            Você já se percebeu com um leve desconforto no estômago, coração acelerado, mãos suando ou tensão muscular? Dificilmente diria que não. Se essas sensações corporais estavam acompanhadas de medo do que estava por vir, provavelmente estava se sentindo ansioso. Muitas pessoas se identificam com esse padrão e acreditam que o dia a dia agitado tem dado um toque todo “especial” a sua ansiedade. Esse texto visa identificar possíveis explicações para esse fenômeno e te ajudar a responder a seguinte pergunta: porque sinto que estou cada vez mais ansioso?

Visivelmente, a ansiedade está cada vez mais enraizada na sociedade contemporânea, fazendo com que as pessoas se sintam cada vez menos capazes de controlá-la. Antes de nos aprofundarmos sobre esse tema aplicado ao nosso contexto atual, faz-se necessário percorrermos uma trajetória histórica para compreendê-lo.

Por incrível que pareça, a ansiedade tem adquirido funções adaptativas ao nosso organismo ao longo da evolução da espécie humana. Soa até inusitado compreender que essas sensações tão inoportunas podem ser funcionais ao homem. Para tentarmos analisar essa asserção, tentarei exemplificá-la fazendo você imaginar o cotidiano perigoso dos nossos ancestrais.

Ao conviver com situações instáveis e o risco de morte eminente, é essencial que o homem das cavernas esteja em constante vigilância para sobreviver e preservar sua espécie. Diante de situações perigosas, geralmente ele tem duas opções: fugir ou enfrentá-la. Logicamente, é funcional e interessante a ele que desenvolva habilidades comportamentais para lidar com situações de ameaça. Porém, nem sempre ele terá táticas suficientes para enfrentar um leão faminto, por exemplo. Imaginemos que, ao certificar-se do risco de morte que a presença do leão traz, o sistema autônomo do seu corpo é ativado. A partir de agora, seu organismo está preparado para lidar com essa situação de forma mais rápida e efetiva, considerando todas as rotas de fuga e liberando hormônios que intensificam o ritmo cardíaco, direcionam uma maior quantidade de sangue para os seus músculos e pernas – para que corra com mais eficiência, sua respiração é mais rápida e sua pressão arterial aumenta. Tudo isso é estrategicamente preparado pelo corpo para que ele fuja e sobreviva.

Supomos que, diante desse contexto, uma primeira resposta de fuga é emitida e o homem obteve sucesso ao se comportar dessa maneira. Agora, diante de uma nova situação potencialmente perigosa, podemos prever que a própria ansiedade pode se tornar condição para a emissão de um novo comportamento de fuga.  Em outras palavras, se o indivíduo está sentindo ansiedade, a tendência é que ele se esquive da situação que a gerou (SIDMAN, 1989/2009).

Agora que compreendemos melhor a função que a ansiedade tem adquirido ao longo da nossa história evolutiva, podemos prosseguir para analisá-la em situações cotidianas e contextualizá-la em uma condição fóbica.

Skinner (1953/2005), ao destacar o problema da ansiedade fóbica, afirmava que a própria presença da ansiedade pode nos sinalizar um estímulo aversivo e aumentar a probabilidade de respostas de fuga/esquiva, uma vez que foi estabelecida uma relação de contigüidade entre a ansiedade e o perigo. Então, a ansiedade pode ser aversiva o suficiente para evocar respostas de fuga/esquiva, mesmo que não saibamos, exatamente, o que estamos evitando.

Como já citado, a ansiedade “saudável”, de fato, é útil a nós. Ao funcionar como um alerta de situações que nos causam danos reais ou até mesmo como um “gás” para darmos o nosso melhor em uma prova, por exemplo – se utilizamos esta como o alvo da ansiedade –, podemos conviver com ela normalmente (Teles, 2018). Entretanto, a ansiedade a nível patológico não tem mostrado nenhuma utilidade ao nosso organismo e no nosso cotidiano. Ao contrário disso, pode interferir amplamente no funcionamento e na manutenção de comportamentos saudáveis.

               Utilizemos o mesmo exemplo do estudante que faz provas no colégio. Ao estar imerso em um contexto coercitivo que lhe diz, diariamente, que ele deve estudar para ser aprovado, também lhe são ditas as conseqüências que terá caso não estude. As perdas e sanções que pode sofrer envolvem não envolvem somente a punição do comportamento inadequado por parte da escola (não estudou, nota zero!) e por parte dos pais (perda de benefícios – videogame, sair com os amigos, mesada, etc.). A ansiedade diante de futuras provas, a procrastinação dos estudos, sentimentos de raiva e aversão ao contexto acadêmico são subprodutos que vêm inclusos no pacote.  
               Essa diversidade de efeitos colaterais evidencia o que alguns autores descrevem sobre o problema das punições severas (Sidman, 1989/2009; Skinner, 1953/2005). Ao definir o condicionamento operante, Skinner afirma que comportar-se diante de um estímulo condicionado à contingência primordial é funcional ao sujeito, pois à medida que comportamento de fuga é reforçado – por retirar estímulos aversivos do contexto, no caso do reforçamento negativo, a probabilidade de ele ocorrer novamente é aumentada. A partir dessa concepção, é inteligível que o estudante passe a procastinar uma atividade acadêmica, evite ir à escola ou evite conversar com um professor visto que a sua resposta visa à retirada de aversividade do contexto. 

Ao se aprofundar nos problemas da apresentação da punição severa, Skinner também tratou da punição sem aviso prévio. Segundo o autor, um sujeito que viveu eventos aversivos “incidentais”, ou seja, sem aviso de que algo ruim estava por vir ou sem saber qual comportamento gerou tal consequência, não é capaz de distinguir os estímulos que lhe sinalizam o perigo e, geralmente, não encontra outra saída para se comportar a não ser se esquivar. Pessoas que tem um repertório de esquiva altamente elaborada, comumente, pensam: “algo de errado vai acontecer” (Skinner, 1953/2005).

Por mais que a ansiedade seja distinta do evento aversivo em si, Skinner (1953/2005) relata que também nos esquivamos da ansiedade. Dessa forma, comportamentos reforçados negativamente não estão somente sob controle de estímulos que sinalizam o perigo, mas também dos sentimentos que o precedem. Nesse ponto, o autor afirma que a ansiedade pode até suprimir a aprendizagem de novos comportamentos, uma vez que o sujeito vive se esquivando.

Se o mesmo estudante tem que estudar para uma prova que será realizada semana que vem, há uma alta probabilidade de ele se sentir ansioso diante da quantidade de livros que tem que ler, de emitir comportamentos de procrastinação do estudo ou até mesmo de não estudar. Uma vez que o comportamento de estudar fica sob controle de contingências aversivas e não de contingências reforçadoras (o aprendizado ser importante por si só!), a curiosidade por aprender coisas novas passa a não importar mais.

            Sidman (1989/2009) tem uma posição consistente ao afirmar que o controle coercitivo é responsável pela maioria dos problemas sociais. Constantemente, nos vemos obrigados a fazer coisas para evitar sanções e isso implica dizer que nos esquivamos o tempo todo.

            Do ponto de vista de Sidman (1989/2009), o controle coercitivo resulta em desajustamento social e capacidade reduzida para engajamento construtivo. A inflexibilidade diante de eventos torna-se uma característica notável de indivíduos extremamente ansiosos, marcados pela coerção excessiva e a esquiva de sentimentos aversivos. Tudo aquilo que é seguro e previsível passa a ser a sua experiência diária e sua rotina é contemplada por comportamentos estereotipados e mecânicos.

Portanto, o excesso de controle coercitivo, combinado com uma instabilidade emocional para lidar com eventos aversivos, torna o reforço positivo ainda mais valioso, à medida que o acesso a essa conseqüência vai se tornando cada vez mais difícil na vida do sujeito.

Não é novidade que a contemporaneidade, juntamente com inúmeros avanços tecnológicos, permite o fácil acesso a vários reforçadores imediatos. Um dos instrumentos que foram desenvolvidos para diminuir a taxa de respostas para obter o que queremos, que temos a nossa disposição constantemente e nos permite acesso a um número exorbitante de reforçadores é a internet.

 Segundo Ewald et al. (2017), a busca de algo nas redes sociais que visa o afastamento de sentimentos desagradáveis é um fator identificado em várias pessoas que as utilizam. Isso também significa dizer que estar constantemente conectado a uma realidade paralela pode favorecer déficits de habilidades para lidar com os conflitos reais do indivíduo, que deixa em segundo plano os aspectos relevantes à manutenção das relações humanas e da própria vida. Estamos cada vez menos tolerantes a frustração e mais conectados a uma realidade que nos livra dela.

Bauman (1998) afirma que o sofrimento está intimamente relacionado ao estilo de vida na contemporaneidade. É impossível descartar o mundo em que o sujeito se constrói e o momento histórico como parte da experiência do sujeito que se comporta socialmente (Ewald et al., 2017).

Com o avanço da facilidade para se alcançar objetivos, do sucesso e do bom status social, a promoção do sentimento de inferioridade e inadequação naqueles que não alcançam esses prestígios é cada vez maior. É nesse cenário que vemos pessoas com a sensação de que não sabem lidar com os seus problemas e com o outro.

As redes sociais, por exemplo, nos possibilitam sermos quem quisermos. Não é nada difícil vermos publicações de fotos e frases que transmitem conceitos de liberdade, felicidade e qualidade de vida. Entretanto, é ali que enxergamos o conceito de liberdade paradoxal: indivíduos são “livres” para realizarem seus desejos que sempre estão condicionados ao alívio diante de tantos problemas, de uma busca por aprovação social ou até o resgate de uma felicidade perdida (Ewald et al., 2017).

A pressão social para alcançar status e sucesso tem se tornado a motivação central de várias escolhas que realizamos. A liberdade na modernidade é uma ideia camuflada de que você pode ser livre, porém, somente se alcançar a felicidade. De acordo com Ewald et al. (2017), a ansiedade tem se tornado um sintoma derivado da sensação de impotência do homem contemporâneo. Diante de tantos meios de coerção, ele acredita que não é capaz de lidar com os seus problemas, o que o faz recorrer às medidas mais rápidas para aliviar tal sofrimento.

Num contexto onde a felicidade é um dever e o desempenho é a engrenagem que move o mundo, o homem passa a se ver como uma máquina ultrapassada, um instrumento inútil perante a sociedade bem sucedida e, por mais que tente, não consegue acompanhar e cumprir as regras rígidas que lhe são estabelecidas (Ewald et al., 2017).

O sofrimento passa a ser tratado, então, isoladamente de todo o contexto histórico-social em que estamos vivendo. O cenário contemporâneo é totalmente retirado de cena e todas as possibilidades de síndromes, transtornos e deficiências são direcionadas ao indivíduo, que agora é diagnosticado e pertencente a um campo banalizado (Ewald et al., 2017).

A imposição de ideais de liberdade e felicidade acabam sendo, então, as molas propulsoras da ansiedade desenfreada na contemporaneidade. O paradoxo do tempo pós-moderno nos diz que podemos ser e ter o que quisermos, instigando o sentimento de que os seus desejos podem ser facilmente realizados (Ewald et al., 2017). Entretanto, é exigido do sujeito um ritmo frenético, a corrida pela competição e de desempenhar o melhor de si para alcançar os seus ideais, como se a felicidade estivesse no topo da montanha inalcançável e que não há mais fôlego para continuar escalando.

Atentar-se para a relação do sujeito com o seu contexto histórico-social tem se tornado cada vez mais importante e condição necessária para compreender demandas psicológicas. Estamos em constante envolvimento com a realidade que nos cerca e cada vez mais afetados, emocionalmente, pela coerção exercida por ela. A análise funcional de um comportamento deve sempre compreender o indivíduo na sua integralidade, abrangendo todas as suas experiências e os níveis de contextos que selecionam seus comportamentos para, assim, encontrarmos as raízes desencadeadoras dos sintomas.

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Z. O mal-estar na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.

EWALD, A. et al. Contemporaneidade e sofrimento psíquico: Relações entre modos de vida e demandas psicoterapêuticas. Psicologia Argumento, v. 30, n. 68, p. 119–129, 2017.

SIDMAN, M. (2009). Coerção e suas implicações. (R. Azzi; Andery, M.A, Trads.) Campinas: Editora Livro Pleno. (Originalmente publicado em 1989).

SKINNER, B. F. (2005). Science and human behavior. 2 ed. Society. (Originalmente publicado em 1953).  

TELES, L. O cérebro ansioso: Aprenda a reconhecer, prevenir e tratar o maior transtorno moderno. 1 ed. São Paulo: Alaúde Editorial, 2018.

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O Dia das Crianças geralmente é sinônimo de muitos presentes, doces e festa. Apesar do apelo comercial da data, esse dia também é uma ocasião para nos atentarmos ao modo como estamos lidando com os pequenos.

Atualmente, em decorrência das transformações culturais, políticas e econômicas pelas quais a sociedade vem passando e com a exigência de jornadas de trabalho cada vez mais extensas, é comum que, para lidar com a própria culpa, alguns pais tentem compensar sua ausência com bens materiais, como brinquedos, celulares, computadores, viagens etc. No entanto, nada pode substituir a importância da presença parental na formação das crianças:  a família é a principal influência norteadora da constituição da personalidade da criança e o desenvolvimento de habilidades sociais na primeira infância está fortemente vinculado ao contexto familiar (MONDIM, 2008). O bom funcionamento familiar, a existência de vínculo afetivo, o apoio e monitoramento parental são fatores que reduzem a probabilidade de diversos problemas de comportamento no futuro, como o uso de drogas e o engajamento em atos infracionais.

Nas últimas décadas, a demanda por atendimento psicológico para crianças tem aumentado cada vez mais, e é consenso entre os psicólogos que na maioria das vezes, os problemas de comportamento das crianças têm como objetivo conseguir a atenção dos pais:  você já percebeu que, geralmente, quando a criança está brincando quietinha, isso passa despercebido, mas basta um comportamento inadequado para que os pais corram repreendê-la? A questão é: para crianças, não importa que você esteja dando uma bronca, desde que você esteja prestando atenção nela. Dessa forma, quanto menos atenção a criança está recebendo, mais frequentes e intensos serão os comportamentos-problema. Muitas vezes, basta que os pais passem a fornecer atenção e elogios aos comportamentos adequados, para que os inadequados diminuam de frequência.

Além dos efeitos sobre os comportamentos-problema, a atenção dos pais também é responsável pela construção da autoestima dos filhos: como qualquer outro sentimento, a autoestima não nasce conosco e deve ser desenvolvida durante a vida. Dessa forma, o reconhecimento que os pais expressam ao filho pelos seus comportamentos e conquistas é fundamental no desenvolvimento do amor próprio (GUILHARDI, 2002). É importante, entretanto, que os pais certifiquem-se de fazer com que a criança se sinta amada tanto nas vitórias quanto nas derrotas. 

Se tratando da educação das crianças, é comum que os pais transitem entre a repressão e a permissividade: enquanto um modelo diz respeito aos castigos corporais (beliscões, palmadas, puxões de orelha) e à retirada de algo importante para a criança (ex. ficar uma semana sem videogame), o outro refere-se à ausência de limites, e ambos têm efeitos nocivos sobre o comportamento das crianças, acarretando em prejuízos ao processo educativo dos filhos.

Como sabemos, a utilização de punição corporal na educação dos filhos é proibida desde 2014: a lei 13.010 aponta que “a criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto”. A literatura científica aponta que o maltrato é o fator de risco mais fortemente associado com o desenvolvimento de psicopatologias: o abuso e a negligência causam efeitos profundamente negativos no curso de vida da criança, podendo comprometer a cognição, linguagem, desempenho acadêmico e desenvolvimento sócio-emocional (MAIA, 2005). Sabemos também que o uso de punição, tanto corporal quanto outras formas mais brandas, acarreta em efeitos emocionais na criança (como sentimentos de raiva, medo e ansiedade), além de só suprimir o comportamento inadequado quando a pessoa punidora (o pai que exerceu a punição) está presente: isso faz com que a criança passe a fazer “arte” escondida e a mentir para os pais.  Além disso, ao se utilizar da punição, estamos fornecendo um modelo de agressividade para as crianças, que aprendem grande parte de seu repertório por imitação, e tendem a repetir os atos agressivos.              

A ausência de punição, no entanto, não é sinônimo de permissividade: para ensinar aos filhos o que é correto, devemos estabelecer e explicitar limites, sermos claros e consistentes e garantir que os limites sejam respeitados, elogiando, dando atenção e afeto aos filhos quando seguirem as regras estabelecidas. Alguns pais podem imaginar que as crianças se sentem amadas quando podem fazer o que querem: no entanto, elas precisam de limites saudáveis e razoáveis, e a preocupação e supervisão dos pais é o que faz com que elas se sintam amadas.

Se você, por diversos motivos, não pode passar grandes quantidades de tempo com seu filho, invista na QUALIDADE do tempo que passa com ele: demonstre interesse, ouça atentamente as suas histórias, se esforce para compreender seus problemas. Compensar a ausência com presentes pode fazer com que a criança supervalorize as coisas materiais em detrimento dos momentos preciosos com quem se ama, e que pense que o dinheiro pode comprar tudo. Nesse dia das crianças, tudo bem presentear seu filho com um carrinho, uma boneca ou um xbox, mas não se esqueça de que o presente deve ser acompanhado por um caloroso abraço e um “eu te amo”.

 

Referências:

Mondin, E. M. C. (2008). Práticas educativas parentais e seus efeitos na criação dos filhos. Psicologia Argumento, 26 (54), 233-244.

Canaan, S., Neves, M. E., Silva, F., & Rober, A. (2002) Compreendendo seu filho: uma análise do comportamento da criança. Belém: Paka-Tatu.

Guilhardi, H. J. (2002). Auto-estima, autoconfiança e responsabilidade. In M. Z. S. Brandão et al. Comportamento humano: tudo ou quase tudo que você queria saber para viver melhor. Santo André: Editora Esetec. 63-98

Maia, J. M. D., & Williams, L. C. A, (2005). Fatores de risco e fatores de proteção ao desenvolvimento infantil: Uma revisão da área. Temas em Psicologia, 13(2), 91– 103.

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No dia 10 de outubro é comemorado o Dia da Saúde Mental. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2000), a saúde seria um compilado de bem-estar físico, mental e social, e não se resume apenas à ausência de doenças (Souza, Baptista e Baptista, 2010). Dessa maneira, entende-se que a saúde mental é uma “fatia” do que se pode considerar saúde e diz respeito à capacidade do indivíduo de desenvolver relacionamentos interpessoais, se engajar em atividades, raciocinar, e também cuidar de si. Visto isso, não estar doente não é o único requisito a cumprir para possuir uma boa saúde mental.

Sabe-se que muitos fatores da vida cotidiana podem influenciar na saúde mental, como, por exemplo: as condições sociais e econômicas, os relacionamentos interpessoais, o trabalho e a rotina de atividades. Além disso, vale destacar que possuir relacionamentos e atividades que proporcionem prazer e bem-estar podem auxiliar o indivíduo a ter uma saúde mental elevada (SOUZA, BAPTISTA e BAPTISTA, 2010). Segundo Souza, Baptista e Baptista (2010), uma rede de apoio social bem constituída pode ser um fator de proteção para transtornos mentais comuns (TMC), uma vez que auxilia o indivíduo a manejar situações adversas ou inesperadas. Assim, o indivíduo pode adaptar-se às demandas de seu contexto, e lidar melhor com seus sentimentos.

Outro fator importante para cuidar da saúde mental é a autoestima. Segundo Guilhardi (2002), a autoestima “é o produto de contingências de reforçamento positivo de origem social”, ou seja: ninguém nasce com uma boa autoestima, ela é construída ao longo da vida. Com isso em vista, relacionamentos sociais e uma rede de apoio que valorizem as ações e os comportamentos de um indivíduo são essenciais para a construção de uma boa autoestima, e a autoestima é indispensável para que uma pessoa consiga sentir-se útil, amada e importante. Todos esses sentimentos, em conjunto, possuem um forte impacto na saúde mental, uma vez que podem fazer com que as pessoas sintam que possuem “motivos para continuar”.

Os “motivos para continuar” são fruto de relações e atividades que promovam o prazer e o bem-estar (em uma linguagem analítico-comportamental, pode-se dizer que são fruto de contingências que produzam reforçadores). Portanto, é de extrema importância que um indivíduo não preencha todo seu tempo com atividades que geram muito stress e ansiedade, mas saiba balancear e dividir seu tempo com atividades que o façam sentir feliz, satisfeito e importante, como sair com os amigos, ficar com a família, praticar um hobbie, praticar esportes, etc.

Uma possibilidade para cuidar da saúde mental é investir em psicoterapia, uma vez ela pode auxiliar o cliente a compreender quais são suas fontes de reforçadores, lidar com sentimentos e situações desagradáveis, desenvolver comportamentos úteis para a resolução de problemas, autoestima, autoconhecimento e autoconfiança. A psicóloga Paula Cordeiro ressalta a importância da autonomia individual para a construção de valores que façam sentido tomando como base a vivência do indivíduo. Essa autonomia individual está profundamente relacionada ao autoconhecimento que pode ser desenvolvido na psicoterapia. Segundo Zilio (2011), os valores de um sujeito servirão como base para que seus objetivos sejam definidos, e orientarão seus comportamentos com vistas a atingir esses objetivos. Desta maneira, os valores podem constituir um ponto crucial para conservar uma boa saúde mental – se forem definidos objetivos saudáveis e reforçadores para aquele indivíduo.

Por fim, vale lembrar que não existe uma receita ou uma fórmula secreta para cultivar uma boa saúde mental! Cada indivíduo é único, portanto, cada um deve explorar as possibilidades para descobrir quais atividades são reforçadoras para si.

Referências

DE SOUZA, Mayra Silva; BAPTISTA, Adriana Said Daher; BAPTISTA, Makilim Nunes. Relação entre suporte familiar, saúde mental e comportamentos de risco em estudantes universitários. Acta colombiana de Psicologia, v. 13, n. 1, p. 143-154, 2010.

GUILHARDI, Hélio José. Auto-estima, autoconfiança e responsabilidade. Comportamento humano: tudo (ou quase tudo) que você precisa saber para viver melhor, p. 63-98, 2002.

Organização Mundial de Saúde (OMS) (2000). Conselho Executivo – 107º sessão. Recuperado em 21 mar. 2005: www. saudemental.med.br/OMS.htm.

ZILIO, Diego. Algumas considerações sobre a terapia de aceitação e compromisso (ACT) e o problema dos valores. Perspectivas em análise do comportamento, v. 2, n. 2, p. 159-165, 2011.

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As mudanças nos relacionamentos entre casais ao longo dos anos afetam também a vida sexual. Para debater esse tema e ajudar as pessoas a entenderem melhor as mudanças no desejo em relacionamentos longos, o Núcleo Evoluir promove no dia 5 de outubro o evento “A vida sexual em relacionamentos longos: compreender as mudanças para aproveitar - muito! - a vida sexual do casal!”. O encontro será mediado pela médica ginecologista Rebeca Gerhardt e pela psicóloga Paula Cordeiro, mestre em análise de comportamento. A palestra será das 8h30 às 12 horas, no auditório do edifício Torre Montello (av Ayrton Senna da Silva, 550). Informações e inscrições: (43) 3324-4741 ou whatsapp (43) 9 9813-2619. 

“A motivação para fazermos o evento surgiu dos atendimentos. As mudanças no desejo sexual são comuns, como são normais as mudanças em outros aspectos do relacionamento. Entender estas transformações é o caminho para trazer mais equilíbrio à vida a dois, inclusive no sexo”, pontua Paula. 

Segundo ela, quem não se atenta às mudanças pode entrar em sofrimento e até colocar o relacionamento em risco. “Por isso é importante conversar. No evento, vamos convidar o público a participar da conversa, pois não existem soluções únicas, é preciso explorar e descobrir o que funciona em cada fase”, diz. 

A psicóloga lembra que sexo não se resume ao ato específico, mas envolve também intimidade, companheirismo e afetividade. “Nosso objetivo é ajudar os participantes a descobrirem o que gostam no momento. Se o relacionamento muda, por que a vida sexual não iria mudar?”, questiona. 

O encontro é aberto a casais de diferentes orientações sexuais e também participantes individuais em busca de autoconhecimento. 

Serviço

“A vida sexual em relacionamentos longos: compreender as mudanças para aproveitar - muito! - a vida sexual do casal!”

Com Rebeca Gerhardt e Paula Cordeiro

Data: 5 de outubro

Horário: 8h30 às 12 horas

Local: auditório do edifício Torre Montello (av Ayrton Senna da Silva, 550)

Investimento: R$ 65,00 (individual) ou R$ 120,00 (casais ou duplas)

 Informações e inscrições: (43) 3324-4741 ou whatsapp (43) 9 9813-2629. 

 
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Por Bruna Senhorelli, estagiária do Núcleo Evoluir

Apesar de se fazerem presentes na sociedade desde sempre, por muito tempo as pessoas portadoras de deficiência foram consideradas como uma abominação ou um castigo divino, sendo segregados em hospitais, marginalizados e excluídos. Foi só no século XIX que essa população passou a ter atenção e cuidado especializado, período que coincide com um grande avanço na medicina, o que permitiu a melhoria na saúde e qualidade de vida desse público. No entanto, até hoje a falta de conhecimento da sociedade em geral faz com que haja um estigma em torno da deficiência, reduzindo o sujeito à sua limitação e enxergando-o como incapaz.

No Brasil, a partir da Constituição de 1988, algumas mudanças significativas foram realizadas nesse cenário: entre os direitos alcançados nessa época, estão a reserva de vagas em concursos públicos, cotas em empresas privadas e as diretrizes para a educação inclusiva. Segundo a Lei Nº 13.146/15, conhecida como Lei da Inclusão, a pessoa com deficiência é aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. A legislação, apesar de ser um passo importante, não garante que tais direitos estejam sendo cumpridos de fato: é preciso lutar diariamente pela implementação e fiscalização de tais políticas.

Apesar da lei exigir que empresas com cem ou mais funcionários destinem de 2% a 5% de suas vagas a pessoas com deficiência, ainda falta muito para que essa população tenha plena inserção no mercado de trabalho. O número de vagas reservadas, mesmo sendo irrisório, é frequentemente descumprido pelas empresas. Dados do IBGE de 2010 apontam que 45,6 milhões de brasileiros declararam ter alguma deficiência, representando cerca de 23% da população. Entre elas, se enquadram deficiência visual, auditiva, intelectual, física e múltipla. Será que essa grande parcela da população está sendo incluída de fato?

No âmbito da educação, faz-se claro que a determinação legal não basta para que a inclusão seja realizada com qualidade: apesar do aumento expressivo de crianças com deficiência matriculadas na rede regular de ensino, alguns dados apontam que as práticas educativas têm surtido pouco efeito na aprendizagem desses alunos. Um fator que contribui para o insucesso da inclusão escolar é o fato de que as políticas delegaram ao professor a responsabilidade de estabelecer as condições necessárias para a escolarização desses alunos, apesar desses profissionais relatarem uma falta de conhecimento sobre as deficiências e em como lidar com esse público. Nesse sentido, é necessário que haja a capacitação dos profissionais que entrarão em contato com essa população, além de uma conscientização da sociedade em geral.

Apesar dos avanços consideráveis, ainda há muito que se fazer para promover a plena inclusão da pessoa com deficiência. É preciso se atentar ao fato de que eliminar somente as barreiras físicas não é suficiente: além das arquitetônicas, existem barreiras “invisíveis”, comunicacionais, sociais e atitudicionais que prejudicam o direito da pessoa com deficiência de se locomover, se relacionar e exercer sua cidadania. A acessibilidade, muito mais do que adaptar ambientes, diz respeito à construção de uma sociedade mais igualitária através da garantia de direitos e do respeito. Nesse Dia de Luta da Pessoa com Deficiência, há muito para se comemorar, mas também é importante nos atentarmos para as barreiras que ainda precisam ser quebradas, e principalmente ao que cada um pode fazer individualmente para contribuir com um país justo e igualitário para todos.

MACIEL, M. R. C. Portadores de deficiência: a questão da inclusão social. 14 (2). São Paulo em Perspectiva, 2000.

DICHER, M; TREVISAM, E. A jornada histórica da pessoa com deficiência: inclusão como exercício de direito à dignidade da pessoa humana.

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O número de suicídios registrados vem crescendo assustadoramente no País. Segundo informações da campanha Setembro Amarelo acontecem cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo. Profissionais se debruçam tentando entender ou mapear gatilhos e causas. A partir dessas tentativas nasceu a campanha Setembro Amarelo: um mês de conscientização e prevenção ao suicídio. A iniciativa cumpriu um papel de imenso valor tirando o tema de um lugar escuro de falta de informações e vergonha e trazendo para a discussão de toda a sociedade.

No entanto, muito pouco se fala sobre o suicídio entre crianças e adolescentes. “Difícil imaginar que os pequenos e jovens adultos possam ser tomados por tamanha tristeza e desesperança a ponto de terminar com a própria vida. Mas isso acontece”, destaca a psicóloga Paula Cordeiro, do Núcleo Evoluir em Londrina. É importante, acrescenta ela, que se tenha entendimento da relação da nossa cultura com esse sofrimento crescente e, em consequência, o número de (tentativas) suicídio. Hoje, lamenta a psicóloga, temos uma cultura exigente e ao mesmo tempo negligente. “Queremos performance, estudos, sucesso, exigimos o máximo das nossas crianças e adolescentes. Eles fazem inglês, natação, judô, balé, aula de dança, reforço na escola, Kumon, entre inúmeras outras atividades. O fantasma do vestibular chega cedo. A pressão por um lugar ao sol no mundo dos adultos também”, exemplifica.

Ao mesmo tempo, lembra Paula, nossa sociedade não abre espaço para que as crianças, adolescentes e mesmo adultos falem sobre sentimentos. Muitas vezes, “pede-se” para as crianças pararem de chorar ou rotulam que os adolescentes são dramáticos. Na avaliação dela, está faltando um pouco de tempo, empatia e conhecimento para acolher os sentimentos das crianças e adolescentes. E assim desenha-se uma panela de pressão: exigências de todos os lados e nenhuma porta para correr.

Dessa forma, tem início as dificuldades e sofrimentos emocionais desse público tão jovem: ansiedade, tristeza profunda, quadros depressivos, transtornos alimentares, dificuldade de foco, entre outros. E por outro lado, pontua a psicóloga, a sociedade apresenta soluções nada adequadas: uso de drogas (lícitas ou não), desenhos, séries e filmes que são usados como recompensas e calmantes, jogos online, comidas gostosas. “Inúmeras alternativas pra não pensarmos na dor. Pra não lidarmos com tristezas, frustrações, ansiedades e outros sentimentos.”, pondera Paula. E às vezes, diz ela, se chega à ultima fuga: o suicídio. “O suicídio, na maior parte do tempo não é sobre morrer, é sobre acabar com uma dor, com um sofrimento muito grande”.

Paula observa que não existe uma fórmula “simples”. “Não há um plano de fuga. Não existe uma receita pronta. Existe, sim, uma mudança de cultura. Uma tentativa de seguir por um caminho em que haja interação. Interesse real na criança, no adolescente, em seus problemas, em suas vitórias. É mais difícil do que parece. Exige tempo (vale mais que ouro hoje em dia), paciência e empatia”, sugere.

A solução não vem na bula do remédio, reforça a psicóloga, está em promover nos adultos, para que esses ajudem as crianças e adolescentes, uma vida com propósitos, valores e aceitação. “Nada disso é simples. Mas é preciso tentar e de forma urgente.”

Paula ressalta que não é o caso de se falar nos "5 sinais de que seu filho está em perigo", mas deixa um pedido aos pais e cuidadores:  “Conversem com seus filhos, escutem o que eles têm pra dizer (de forma real, presente e sem tempo contado). Ensine-os a acolher os sentimentos, diga que às vezes ficamos tristes e frustrados. Ajude-os a encontrar valores, propósitos de vida (não é uma profissão, ou uma meta de classe social, mas sobre como é a pessoa que ele quer se tornar). Passem tempo juntos, de qualidade, entendam que eles sentem dor e que não é drama”. As respostas, garante a psicóloga, não são simples, mas são mais acessíveis.

Além disso, Paula recomenda que em qualquer momento que sentirem necessidade é para procurar ajuda. “Psicoterapia pode ajudar nessas mudanças e novos caminhos. Assim cuidamos de nossas crianças, de nossos adolescentes e do nosso futuro.”

 
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Comer é um ato inevitável. Comer é inerente à vida, visto que quem não o faz, falece, seja humano, cachorro, tamanduá, ipê amarelo, cogumelo e até bactéria. É o consumo de nutrientes que fornece energia para um organismo se manter vivo e, dentro de um ponto de vista fisiológico, isso até poderia servir como uma definição para o ato de comer. “Na natureza nada se cria, tudo se transforma” é uma frase muito adequada para resumir esse processo biológico – um organismo vivo transforma os nutrientes que consome na energia que o mantém vivo e, em algum momento, precisará comer novamente para continuar vivendo.

Entretanto conseguir esses nutrientes não é tão simples. Comportar-se é fundamental para se alimentar e, dentro disso, existem uma gama de comportamentos que podem ser elencados com esse objetivo: movimentar-se até o alimento, lutar contra ele, agarrá-lo do alto de uma árvore ou ir até o supermercado mais próximo e abrir um pacotinho da batata chips. Visto que isso pode ser muito custoso, porém essencial, o comportamento de se alimentar controla gigantesca parte da vida dos organismos, principalmente da espécie humana.

Basta olhar para a nossa História: deixamos de caçar e coletar para plantar e domesticar animais há mais de 10 mil anos, cruzamos continentes e oceanos por especiarias séculos atrás e hoje inventamos inúmeras maneiras de tornar nossa alimentação mais fácil e prática, ainda que isso custe nossa saúde e, talvez, nosso planeta. A desnutrição, que sempre foi constante em nossa civilização, atualmente divide espaço com a obesidade e outras doenças crônicas provocadas pelo alto consumo de gorduras não saudáveis, açúcares refinados e conservantes.

Diante disso, ainda é possível dizer que comer é somente consumir nutrientes? O que consumimos aqui no Brasil costuma ser completamente diferente do que pessoas na Índia, em Honduras ou em Madagascar consomem e isso tem um porquê – comer é um ato social. Depende da nossa cultura, da nossa geografia, da nossa história. Esses aspectos abrangem tanto o acesso que temos aos alimentos, como os preparamos e como os consumimos (que atire a primeira pedra o(a) brasileiro(a) que nunca teve dificuldade de comer com hashis). 

Além de tudo, comer é um comportamento mantido não só por saciar a fome, mas também pelo prazer que proporciona. São descargas de dopamina e serotonina, substâncias do nosso cérebro responsáveis pelas sensações prazerosas, modeladas pelo contato que temos com a comida ao longo de nossa vida. Não é mistério o porquê sua avó prefere doce de abóbora enquanto você gosta mais de chocolate, ou vice-versa.

Vale ressaltar também a importância da ingestão de nutrientes para além da produção de energia para o corpo. Eles são primordiais para a produção de neurotransmissores que, em déficit ou excesso, podem contribuir para o desenvolvimento de transtornos psicológicos como depressão e ansiedade. Um corpo que não recebe os nutrientes necessários muito provavelmente irá passar por algum nível de sofrimento físico e/ou psíquico.

Defronte a esse cenário complexo e multifacetado, a atuação do nutricionista é extremamente importante. Quando falamos em saúde, um trabalho interdisciplinar muitas vezes é indispensável e, bem como o psicólogo e o psiquiatra intervêm sobre comportamentos e sentimentos, o nutricionista faz isso de uma forma mais indireta, porém crucial: a partir da nossa alimentação.

É esse profissional que, considerando todos esses diversos fatores, traz possibilidades de mudança pelo ato de comer, respeitando as necessidades de cada pessoa e o contexto em que está inserida. A elaboração de planos alimentares individuais é uma fração fundamental de seu trabalho, porém não é restrito a âmbito clínico. Sua atuação engloba tanto contextos educacionais, de saúde coletiva, industriais e de pesquisa, contudo, e infelizmente, poucas vezes sua figura é lembrada nessas situações.

O nutricionista, como diz a própria palavra, é alguém que nutre, sejam corpos, comportamentos, histórias, relações e, em especial, transformações. Por trás das necessidades nutricionais de um indivíduo que se alimente de determinada forma sempre haverá uma história genética, uma história de vida e uma cultura atuando sobre elas. Cabe a nós decidir se vamos continuar repetindo os modos de vida nos quais nos encontramos ou se vamos buscar meios mais saudáveis e sustentáveis de viver e, para isso, podemos contar sempre com esse alguém.

Referências:
FRANCA, C. L. et al. Contribuições da psicologia e da nutrição para a mudança do comportamento alimentar. Estudos dePsicologia (Natal), v.17, n. 2, p. 337-345, 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2012000200019&lng=en&nrm=iso>. 

JACKA, F. N.; MYKLETUN, A.; BERK, M. Moving towards a population health approach to the primary prevention of common mental disorders. BMC Medicine, v. 10, n.149, p.1-6, 2012. Disponível em: 
<https://bmcmedicine.biomedcentral.com/articles/10.1186/1741-7015-10-149>

RODRIGUES, E. M.; BOOG, M. C. F. Problematização como estratégia de educação nutricional com adolescentes obesos. Caderno de Saúde Pública, v. 22, n. 5, p. 923-931,2006. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2006000500005>

TRICHES, R. M. Promoção do consumo alimentar sustentável no contexto da alimentação escolar. Trabalho, Educação e Saúde, v. 13, n. 3, p. 757-771, 2015. Disponível em: <https://www.redalyc.org/pdf/4067/406756978013.pdf>

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“Psicologia é coisa de gente louca”. “Eu sei resolver os meus problemas”. “Não preciso pagar para ser aconselhado”. Por muito tempo, diversos estigmas e preconceitos foram calcados no imaginário coletivo a respeito da profissão do psicólogo. Diante da visibilidade e ampliação da psicologia, a sociedade tem se conectado cada vez mais com esse trabalho e frases como essas não causam tanto efeito como antigamente. A importância deste profissional da saúde tem se mostrado, principalmente, quando outras áreas foram desenvolvidas para atender as mais variadas parcelas da população. Além da área clínica, o trabalho é realizado no contexto escolar, organizacional, hospitalar, docente, jurídico, do esporte, do trânsito, comunitário, social, da pesquisa, entre outros. Os diferentes campos de atuação da psicologia têm demarcado cada vez mais as suas características e a sua identidade. 

Na década de 80, a aproximação do psicólogo a questões sociais direcionou uma grande parcela desses profissionais a instituições públicas de saúde, rompendo com os estereótipos “elitistas” da profissão.  Em tempos de exaltação do individualismo, a psicologia destacou a importância do fortalecimento do coletivo, da visão de cidadãos que possuem direitos e que a psicologia é capaz de construir práticas voltadas para a promoção da saúde pública e estar comprometida com o bem-estar social.  As ações no âmbito da atenção básica também têm se estendido à prática psicológica, que volta a sua atuação à promoção da qualidade de vida por meio de mudança de hábitos individuais. Assim, nesse contexto, o psicólogo tornou-se responsável pela efetivação dessa política pública que é calcada no direito a vida, ao qual todo cidadão é amparado. 

Diante desse cenário, a articulação das diretrizes da psicologia com os direitos humanos é um tema que tem sido largamente discutido entre colaboradores do Conselho Federal de Psicologia (CFP). O principal propósito dessas ações consiste em aplicar princípios éticos e realizar uma abordagem psicológica das políticas públicas para que os direitos humanos não sejam fundamentados unicamente a práticas legislativas, mas que tenham considerações éticas sobre o que é justo perante as diversificações e individualidades dos sujeitos no âmbito social. Uma vez inviolável o direito à qualidade de vida, o psicólogo pode assumir um papel de extrema relevância nessa garantia.  

Conforme as práticas psicológicas foram ganhando força no seu desenvolvimento, mais distantes elas se colocavam de modelos biomédicos, que visam o diagnóstico, a higienização e normalização dos sujeitos e mais próximas se situavam de modelos que consideravam a complexidade do sujeito. 

Não é novidade que, na psicologia, a individualidade é uma premissa imprescindível na consideração do ser humano enquanto sujeito construído a partir de suas relações. O seu modo de se comportar frente ao mundo é único perante os outros, pois a funcionalidade que cada contexto possui no seu amplo repertório de experiências depende unicamente do significado que lhe são atribuídos. A psicologia compreende que cada sujeito tem uma visão particular sobre determinado fenômeno, por mais que existam padrões dominantes de pensamento e atuação em determinada cultura, trabalho, religião ou família.

Hoje, a psicologia resiste a outras tendências e pressões sócio-político-culturais. O grande desafio da profissão tem tido como principal foco o confronto com padrões normativos de conduta e cura, buscando romper o processo da patologização desmedida da vida. Esse caminho contrário à evolução tem sido cada vez mais percorrido na contemporaneidade, apagando toda a árdua e longa trajetória que a psicologia tem percorrido até aqui.

Os avanços sobre os modelos das práticas psicológicas estão sendo brutalmente confrontados por uma sociedade que está regredindo a panoramas preconceituosos do século XIX. A posição sociopolítica sobre padrões de normalidade e ajustamento introduz, cada vez mais, os sujeitos a processos mecânicos e homogeneizantes, desconsiderando as suas razões ontogênicas para se comportarem e favorecendo o surgimento de sentimentos de anormalidade. Por mais que a inserção dos psicólogos em diversos âmbitos já tenha demonstrado a eficiência do seu trabalho, a psicologia assume hoje, obrigatoriamente, uma nova responsabilidade: a luta incessante de empregar cada vez mais voz em uma sociedade que está se opondo ao progresso. 

No âmbito do esporte, o respaldo psicológico a atletas tem mostrado que a instabilidade emocional de um time de futebol não é produto de “frescura”, mas que a sua saúde psicológica para um bom desempenho é tão importante quanto um treino intensivo ou alimentação balanceada. A psicologia jurídica mostra que, em um julgamento criminal, é imprescindível descrever a um juiz como o comportamento criminoso é adquirido, aprendido, evocado e mantido no repertório comportamental do sujeito. No contexto escolar, conhecer histórias de vida que envolve comportamentos de rebeldia em sala de aula pode evidenciar violência às crianças e famílias em situações críticas de pobreza, favorecendo a conscientização na medicação de alunos que não se adaptam a metodologias prévias de aprendizagem.

A luta por uma atuação ética, integralista e que visa, primordialmente, a equidade, tem sido constante entre os profissionais de psicologia e a rede complexa de posições de poder do cenário sociopolítico. Quanto ao seu esforço para ganhar destaque na luta, a psicologia se garante. A eficácia do seu trabalho tem sido demonstrada dia após dia, pois confirma a importância de se considerar a influência das diversidades do modo de ser de cada indivíduo em suas relações. A relevância social do seu trabalho é vista quando as mais diversas camadas da sociedade reconhecem que, em atuação conjunta com outras áreas, a psicologia enriquece práticas que atuam sobre realidades complexas. Os seus objetivos são cumpridos quando um processo se encaminha ao fim com palavras de gratidão e com uma infinitude de portas que foram destrancadas e abertas. 

Questionando mecanismos normalizantes, rompendo barreiras discriminatórias, garantindo direitos humanos a partir de princípios éticos e considerando realidades integrais, a psicologia sempre lutou e ganhou espaço. Hoje, passamos por uma luta acirrada, mas que é composta por profissionais que nunca cederam e não irão ceder por falta de resistência ou por conformidade. O verdadeiro psicólogo é aquele que não se conforma. 

REFERÊNCIAS
BASTOS, Antônio Virgílio Bittencourt; GOMIDE, Paula Inez Cunha. O psicólogo brasileiro: sua atuação e formação profissional. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 9, n. 1, p. 6-15,  1989.  Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931989000100003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em  26  Ago.  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98931989000100003. 

Conselho Federal de Psicologia. (1999). Resolução 01/1999. Brasília, DF: Autor. Disponível em: <http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/1999/03/ resolucao1999_1.pdf>. Acesso em 26 Ago. 2019.

GESSER, Marivete. Políticas públicas e direitos humanos: desafios à atuação do Psicólogo. Psicol. cienc. prof.,  Brasília, v. 33, p. 66-77, 2013. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932013000500008&lng=en&nrm=iso>. access on  26  Aug.  2019.

PEREIRA, Magali Cecili Surjus. O mundo contemporâneo e o compromisso de psicólogos com a definição de uma nova estética da vida social. SILVEIRA, AF., et al., org. Cidadania e participação social [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2008. pp. 35-43. ISBN: 978-85-99662-88-5. Disponível em SciELO Books <http://books.scielo.org>. 

SANTOS, Keli Lopes; QUINTANILHA, Bruna Ceruti; DALBELLO-ARAUJO, Maristela. A atuação do psicólogo na promoção da saúde. Psicol. teor. prat.,  São Paulo ,  v. 12, n. 1, p. 181-196,   2010 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872010000100015&lng=pt&nrm=iso>. acesso em  26  ago.  2019.

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Por Julia Röcker, estagiária do Núcleo Evoluir

No segundo domingo de agosto, é comemorado o Dia dos Pais. Mas, atualmente, o que significa ser pai? Certamente vai além de questões genéticas e há responsabilidades e implicações relacionadas à paternidade. Algumas dessas implicações estão relacionadas a estar presente, acompanhar o crescimento dos filhos, auxiliá-los em seu desenvolvimento e educá-los.

Após a primeira metade do século XX, com a inserção da mulher no mercado de trabalho, o pai deixou de ser apenas o “provedor” da casa, e as minúcias da relação familiar passaram a fazer parte de suas responsabilidades. Atualmente, a sociedade ocidental ainda é organizada com base em uma estrutura patriarcal, apesar dos papeis familiares estarem gradualmente sendo “dissolvidos”. Hoje o pai pode trabalhar fora, em casa ou atuar nessas duas esferas tal qual era o papel exclusivo da mãe. Deve-se reconhecer que nem sempre as responsabilidades e demandas que vêm no pacote “paternidade” são assumidas pelos pais.

Outra responsabilidade da paternidade é ser capaz de ensinar a seus filhos comportamentos chamados de sensibilidade e afetividade. Ainda que em inúmeras vezes os papéis afetivos da criação dos filhos sejam atribuídos às mães, é  imprescindível destacar a necessidade de que os pais também desenvolvam essas habilidades afetivas e acompanhem ativamente seus filhos, uma vez que a falta de proximidade e sensibilidade entre pais e filhos pode prejudicar os relacionamentos familiares e fragilizar esses vínculos importantes. Em relacionamentos em que os pais desenvolvem habilidades afetivas com seus filhos, geralmente a criança tende a sentir que seus sentimentos são validados, tende a se sentir amparada e acolhida pela família, e os conflitos e dificuldades podem ser trabalhados com mais naturalidade se houver liberdade de comunicação, o que já serve como um modelo adequado de solução de problemas para a criança.

As vezes o título “Pai” acompanhado com das responsabilidade da paternidade, não descreve bem o progenitor de uma pessoa, mas pode descrever outros cuidadores, como a mãe, um padrasto, uma avó, um tio. Diante dessa realidade, é importante dizer que “Pai” não é aquele que somente gera um filho, mas que também quem cuida, acompanha e zela por este filho. Assim, a instituição “família” possui moldes diversificados e flexíveis em que o papel paterno pode ser executado por um responsável que não seja necessariamente o pai de uma criança.

O Dia dos Pais, portanto, é uma data que deve ser comemorada com a família, independentemente de seu formato. Os pais e cuidadores que exercem o papel paterno devem ser celebrados! Sabemos que a paternidade não é tarefa fácil, mas as recompensas e os frutos desta tarefa tão complexa têm valor imensurável.

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A Semana Mundial da Amamentação é celebrada anualmente de 1 a 7 de agosto para destacar a importância crucial do aleitamento materno a crianças em todo o mundo. Embora esta seja uma questão de domínio da mãe, não é responsabilidade exclusiva dela. “A amamentação tende a ser mais eficiente com o apoio de parceiros ou parceiras, familiares e colegas de trabalho”, pontua a psicóloga Claudia Cantero, do Núcleo Evoluir. 

A campanha, segundo ela, é direcionada a todos que convivem com a mãe. “É o que chamamos de rede de apoio, formada por pessoas com quem a mulher pode contar, principalmente no início do processo, quando precisa ter muita paciência e tolerância à dor”, destaca. 

No período de adaptação entre mãe e bebê, é fundamental que a rede de apoio garanta que a mulher possa dormir, se alimentar bem ou mesmo tomar um banho demorado. Isto porque as pesquisas mostram que uma mãe descansada e disposta vai produzir um leite de melhor qualidade. “Também colabora para reforçar o vínculo materno”, acrescenta. 

Claudia reforça que valorizar a amamentação depende de todos assumirem que a responsabilidade não é apenas da mãe, mas de quem convive com ela. “As pessoas ao redor também precisam entender a importância do aleitamento materno. Não é só a mãe que precisa se preparar, mas quem está junto.”

Ela avalia que cabe à rede, também, apoiar a mulher em suas decisões, inclusive quando está no limite. “Muitas mães descrevem que não conseguem mais amamentar e acabam ouvindo críticas sem que as pessoas entendam o que ela está vivendo . É preciso acolher sem imposição de regras”, pede a psicóloga. 

 

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