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Estamos trabalhando há algum tempo sem acidentes

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Por Isabella Canezim, estagiária do Núcleo Evoluir 

Em vários ambientes de trabalho já encontrei aqueles painéis de contagem de acidentes. Dizem que a placa CIPA – como é vulgarmente chamada – é importante para ter controle estatístico da quantidade de dias em que não há eventos lesivos no ofício e para promover a segurança dos trabalhadores daquele lugar. Podemos vê-la em corredores de grandes empresas, indústrias, construções civis  e vários outros lugares. Ultimamente, tem me chamado a atenção o fato dela também ser utilizada em algumas universidades – em específico, a que estou quase me formando. 

Depois de observar, por quase cinco anos, um imutável “trinta e quatro” nesse painel, tenho me questionado sobre a fidelidade desses registros. Sobre os critérios os quais estão fundados. Sobre os esforços para evitá-los. Sobre estratégias de marketing. Sobre humanidade. Em síntese, essa temática me trouxe de volta à realidade das estatísticas– de eventos essencialmente humanos.

Enquanto estudante de psicologia, o questionamento teimoso de realidades meramente visíveis é incessante. A escolha de relacionar-se integralmente com o outro requer, primordialmente, o desejo da busca de si. Mais precisamente, do ser-para-si. Tendo a consciência de que, ao nos defrontarmos com o mundo, precisamos romper com a identidade de uma de relação “de-si” para uma relação “para-si” e sermos responsáveis pelos nossos projetos e escolhas, podemos captar a realidade ontológica do outro em seu verdadeiro ser. Ao saber que essa relação concreta está ligada às nossas atitudes, nos tornamos responsáveis ao ser-para-outro. 

A imersão absoluta na estrutura do ser que escolhe compartilhar conosco a sua realidade requer um longo e florescente caminho. A formação desse vínculo vai desde o acerto de um olhar aconchegante que pode, sem dúvidas, ser um refrigério a uma alma em dessossego, até correr o risco de sugerir uma última palavra, ser meticuloso na tentativa de inserir uma ideia que atravessa uma capa protetora e remenda a ferida aberta que sangra. 

Dentro desse cenário, é previsível que, para alguns futuros profissionais da área, a parte mais temível disso tudo é que não nos dispomos de instrumentos físicos que possam facilitar o manuseio do trabalho. Não há bisturis nem chaves de fenda. A exigência é mínima em extensão e máxima em profundidade. O instrumento do psicólogo é somente e exclusivamente ele, a sua construção enquanto sujeito que mergulha no mundo, assume responsabilidades e é fundado em si próprio para, assim, ser para o outro que está desconstruído e necessita de um auxiliar para erguer seu edifício.

A indisposição ao se dispor inteiramente a esse universo transporta alguns desses sujeitos a um escalão que deveria estar numa região limítrofe – se não muito distante – do que se chama psicologia. Algumas pessoas realmente não deveriam estar onde estão dentro desse curso que é tão responsável ao apresentar o seu intento.

A insensibilidade a conteúdos intimamente humanos não me parece ser uma característica típica de estatísticos. Aparentemente, isso também tem sido observado dentro da psicologia. Não me surpreende perceber que os números descritos no painel da minha universidade permanecem intactos mesmo após a ocorrência de casos de suicídio entre estudantes de psicologia. A falha na comunicação dos “acidentes de trabalho” não é refletida apenas pela suposta maquiagem elaborada por membros da instituição para a preservação de bons números e notoriedade, mas também pela gigantesca falta de ética na análise de uma situação tão vulnerável, percebida no público que mais deveria, em tese, se preocupar em tornar isso público de forma adequada.

Depois de um ligeiro prefácio contextual, deve ficar clara a compreensão de que o tema central desse texto é um problema que apresenta déficits em  muitos aspectos da sua construção e que percorre uma longa linha do tempo. Por mais que o panorama realístico trazido aqui tenha um caráter depreciativo, não devemos nos debruçar inteiramente nele – esse não é o objetivo. 

Depois de perceber a topografia da repercussão do mais recente caso de suicídio nesse cenário acadêmico, é exaustivo ver que, mais uma vez, a psicologia falhou.

A pergunta que se faz é: onde está, exatamente, essa lacuna? É tão remota a ponto de questionarmos o nosso posicionamento frente aos infortúnios que nos surgem; ou a nossa falta de susceptibilidade à percepção de sinais mínimos da sua emergência? Estamos evitando falar a respeito do assunto por nos encontrarmos domados por um estado de medo da eclosão das mais variadas interpretações sobre o caso? Podemos até supor que muitos estão acostumados com a teoria da probabilidade – sim, há erros nas observações sistemáticas, presume Thomas Simpson – e, diante dessas curvas probabilísticas, só nos resta aceitá-las.

Logicamente, é inconveniente atribuir todo o peso do compromisso de uma circunstância fatal, que engloba vários fatores de risco, a um único indivíduo que poderia, de fato, depositar toda a sua diligência para evitar essa máxima e, ainda assim, fracassaria. O alvo central do levantamento dessas questões é trazer à tona a possibilidade da existência de lapsos na construção de um sujeito que deve se posicionar de forma integral a frente daquele que busca por integração.

O manuseio da ética na análise e condução de um sujeito que se apresenta transitável para modificação é uma competência tão primeva que é quase absurdo observar essa falta na galeria profissional daquele que se diz pronto para assumir o seu papel de psicoterapeuta. Essa mesma pessoa poderia se surpreender ao reconhecer que a ética profissional não se restringe apenas ao setting terapêutico. Constituir-se de um personagem fictício que isola seu perfil omisso e negligente pode até ser válido, à medida que isso seja mantido em outras circunstâncias quando se trata da comunicação ou exposição da realidade da sua clínica.

Lamentavelmente, isso vem acontecendo aos baldes. Se for verdade que, diante de tantas possibilidades de falhas, a lacuna pode ser preenchida– ainda que parcialmente – pelo feitio ético na condução de uma análise, muitos estão pecando nessa parte. A apatia tem tido destaque nos comentários sobre casos de suicídio. Não é muito difícil encontrar pessoas tratando esse tema como matéria de entretenimento ou jornalismo, sendo esta capaz de omitir a sua veracidade, desrespeitar uma rede de pessoas envolvidas ou discuti-los com referências a fatores comuns a casos corriqueiros. Refiro-me, ainda, exclusivamente ao público que vivencia a psicologia quase que diariamente.

Poderia nos trazer desesperança constatar, também, que a psicologia apresenta pressupostos carentes de algo que é, até então, indecifrável. Ou são, simplesmente, probabilidades e ainda que, constituída de metodologias científicas, estão inteiramente inclinadas a escorregadios, tanto na sua apresentação e condução quanto na sua aplicação e cumprimento dos seus preceitos na prática. 

Entretanto, se enxergamos por um ângulo panglossiano –há quem nunca veja os espinhos da roseira –, o caráter não-absoluto da ciência humana nos oferece a possibilidade de uma saída alternativa. É preguiçoso, de certa forma, dizer que, diante de um desafio exaustivo, mesmo depois de quebrar a cabeça e esmiuçar toda a nossa bagagem teórica e conjunto literário a respeito do núcleo do problema, não encontramos uma solução prática e específica para resolvê-lo e, feito isso, não sabemos agir fora do que manda o figurino. Até existem os que têm uma carta na manga, mas nunca fizeram nenhum truque de mágica antes.

Se falarmos de intersubjetivismo, por exemplo, sabemos que essa técnica está distante de uma clínica essencialmente comportamental. Não há conexão lógica ao ser imparcial e ao mesmo tempo compartilhar de uma linguagem própria que pode contribuir ou contrastar com a realidade do sujeito. As duas medidas são distintas em seus pressupostos, mas fornecem uma dina^mica de aproximac¸ão de abordagens que, em algum ponto, podem se complementar e preencher espaços vazios entre os limites de diferentes conflitos– porque não?

A mudança de atitude frente a uma demanda humana é emergencial. O ideal, neste momento, não é propor à psicologia alterações de cunho metodológico – ainda que viável –, mas sim, alertar seus aprendizes sobre a crescente falta de cuidado observada na tratativa e na exposição de um conteúdo que, geralmente, é ofertado de uma fonte que está frágil demais para hesitar ao contestar o sofisma ou não se encontra em vida para reagir à algidez que sua morte premeditada – inclusive sua forma – foi tornada pública.

Em matéria de ética profissional, muitos psicólogos em formação estão demonstrando esse hiato e isso reflete em uma relação entre dois seres que deveriam coexistir de forma autêntica. Deve ser tão evidente quanto óbvio que esses atributos são introduzidos, crucialmente, pelo sujeito-modelo, aquele que não sente a necessidade de vestir-se de personas dissimuladas para compor uma relação higiênica.

O caminho a se percorrer pode até exigir muitos passos para trás, mas os primeiros passos para frente podem ser mais fáceis do que se imagina. Defender a raiz semântica e representativa da ética é uma das principais portas de entrada para uma conduta livre de dissimulações e interrogações. Dar o ponto de partida nessa altura da rota é suficientemente apropriado para ter compromisso ao apanhar, manusear e caminhar com um baú repleto de conteúdos extremamente frágeis. 

Hoje, somos avisados que estamos trabalhando sem acidentes. Exigir informações quânticas fieis aos paineis não significa que estamos dando importância para dados estatísticos que confirmem os fatos. Trata-se da fidelidade e sensibilidade ao expor e respeitar a realidade humana enquanto tudo aquilo que deve nos ser acessível, por mais que não se consiga evitar uma pequena fração dela, cruel o suficiente para desencadear uma catástrofe.

A probabilidade existe e a inclinação a cometimento de erros e acertos é real na mesma proporção. Mas nós nunca devemos perder a habilidade da busca incessante de sermos nobres ao estar lidando com um sujeito sensível a qualquer decodificação de novas experiências e, muitas vezes, imprevisível. Nós nunca trabalhamos sem acidentes. Mas sempre trabalhamos.